Em duro desabafo, Lindinor Larangeira aponta desrespeito ao patrimônio tricolor, critica “gentileza” com o rival e vê rompimento definitivo entre cúpula e arquibancada.
(por Lindinor Larangeira)
A expressão “falência moral” define o estágio em que indivíduos, instituições ou sociedades abrem mão de seus valores fundamentais e princípios éticos. Trata‑se de uma metáfora financeira: assim como uma empresa quebra pela falta de recursos, quem entra em falência moral esgota sua integridade, credibilidade e respeito.
No dia 9 de abril de 2026, a atual diretoria do Fluminense decretou, de forma inequívoca, a sua própria falência moral — agora sem aspas — ao desrespeitar e humilhar o maior patrimônio do clube: a torcida.
Fidalguia não é covardia
Fidalguia pode até rimar com covardia no jogo de palavras, mas nobreza, dignidade e respeito às regras não rimam com pequenez, capachismo, submissão, subserviência ou fraqueza de caráter. Foi exatamente essa — ainda que não intencional — a mensagem transmitida pela diretoria do Fluminense aos milhões de tricolores espalhados pelo Brasil e pelo mundo.
Tricolores em toda a Terra, como confiar em dirigentes que priorizam interesses do rival em detrimento da manutenção de direitos assegurados pelo regulamento da competição?
Mais uma vez — e agora de forma especialmente grave — a torcida foi escarnecida. Quem se deslocou de fora do Rio de Janeiro para assistir ao jogo no sábado, sem condições de permanecer para o domingo, não teve qualquer consideração por parte dos cartolas tricolores. O resultado é previsível: danos financeiros, indignação generalizada e, muito provavelmente, ações judiciais contra o clube. Tudo isso porque um grupo que se comporta como se fosse “dono” do Fluminense decidiu ser “gentil” com um parceiro comercial.
“A torcida que se dane”: a lógica de Vanderbilt
A diretoria do Fluminense parece ter atualizado para o século XXI uma célebre frase atribuída ao magnata americano das ferrovias William Henry Vanderbilt (1821–1885): “O público que se dane” — The public be damned.
A declaração foi feita em 8 de outubro de 1882, quando Vanderbilt foi questionado por jornalistas em Chicago sobre a retirada de um trem de passageiros pouco lucrativo, ainda que necessário ao público. Mais de um século depois, Mattheus Montenegro, Ricardo Tenório, Mário Bittencourt e Paulo Angioni mostram‑se discípulos bastante aplicados dessa lógica, literalmente mandando a torcida se danar.

Desrespeito também aos profissionais do clube
Como se não bastasse, o planejamento foi alterado quase à véspera da partida, configurando um claro desrespeito à comissão técnica e ao elenco. Outra vez, tudo em nome da defesa dos interesses de um adversário que jamais foi gentil ou fidalgo com o Fluminense.
E então surge a pergunta inevitável: Onde ficou a tão falada “defesa institucional”?
Ao abrirem mão dos direitos do clube — em um contexto ainda marcado por recorrentes violações regulamentares do rival — os dirigentes atuaram contra os interesses do Fluminense. Com que credibilidade se apresentam como representantes de uma instituição gigante? A resposta é dura, mas necessária: foram pequenos, mesquinhos e ridículos.
Uma semana que pode comprometer a temporada
O cenário esportivo é ainda mais preocupante. Uma derrota no Fla‑Flu praticamente joga no lixo qualquer pretensão ao título do Campeonato Brasileiro. Um tropeço diante do Independiente Rivadavia pode complicar seriamente a campanha na Libertadores.
Em resumo: a “gentileza” pode custar uma temporada inteira ao Fluminense. Se isso se confirmar, que não haja dúvidas — a responsabilidade (ou melhor, a irresponsabilidade) terá nome e sobrenome. Espera‑se do grupo e da comissão técnica o caráter que a diretoria não demonstrou, honrando as cores do clube — algo que, infelizmente, esses dirigentes parecem desconhecer.
Lembremos de Ulysses Guimarães: Ódio e nojo
Em um dos momentos mais emblemáticos da história política brasileira, ao proclamar: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”, durante o discurso de promulgação da Constituição de 1988, Ulysses Guimarães simbolizou o rompimento definitivo com 21 anos de regime militar no Brasil.
Guardadas as proporções, isso aqui também é um rompimento. Não apenas com qualquer ideia de fidalguia, mas com a própria torcida, diante da absoluta falta de respeito, empatia e compromisso.
Como tricolor desde 1969, nunca me senti tão humilhado e envergonhado. Senhores dirigentes: o que sinto neste momento é raiva. E nojo. E creio ser um sentimento da maioria da nossa torcida.
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