A saga do último bicampeonato carioca do Fluminense




Assis (Foto: Divulgação)

Buenas, tricolada! Conforme prometido, a seguir descrevo as minhas emoções e opiniões ao rever a grande final do Cariocão de 1984 (veja o vídeo no final do texto). Devido à quarentena por causa do covid-19, ratificando, assisti à gravação do duelo em que o Carrasco Assis nos concedeu a alegria de gritar aos sete ventos: “é campeão”! Aliás, “é bi-campeão”!

No confronto de 1983, aqui descrito na minha última coluna, uma transmissão de TV menos emocionante do Fernando Sasso, com os comentários do Márcio Guedes, alimentava um teórico favoritismo do Fla. Eram só elogios aos rubro-negros e críticas veladas ao Fluzão!

Já nesta segunda “batalha”, a Globo e o Galvão Bueno (nem lembrava o quanto gostava de suas narrações, à época), com os comentários do tricolor Bernard e do flamenguista Zico, dimensionaram uma outra retórica ao se referirem ao clássico: o Fluminense era, de fato, o grande favorito! Mário Jorge Guimarães e Raul Quadros faziam as reportagens de campo.

Apenas como deferência, esqueci de mencionar um detalhe importante na referida última coluna: o Flu começou a beliscar o título de 1983 bem no começo do embate. Lá pelos 10 minutos, um urubu, que fora levado pelos rubro-negros ao estádio, “invadiu” o quadrilátero verde e obrigou o Arnaldo Cézar Coelho a interromper momentaneamente o confronto. Foram sete minutos de caça ao carniceiro! Depois de inúmeras tentativas dos funcionários do Maracanã de capturá-lo, tombos e gozações, três ou quatro jogadores tricolores cercaram a ave, e o Aldo, corajosamente, segurou-a firme, entregando a quem de direito. Ali traçava-se o nosso destino na final, e eu acreditei piamente naquela possibilidade lá mesmo no maior do mundo, na ocasião.

Hoje é dia de Fla-Flu (1984)

Em 16 de dezembro de 1984, na grande final do Estadual daquele ano (ambas as equipes já haviam batido o Vasco, que participara do triangular decisivo), o time das Laranjeiras foi escalado por Carlos Alberto Torres com Paulo Vítor; Aldo, Duílio, Vica (Ricardo Gomes estava lesionado) e Renato Martins (Branco cumpria suspensão); Leomir (Jandir no banco, mas sem condições de jogo), Renê (Deley fora de combate), Romerito e Assis; Washington e Tato.

O Fla entrou em campo com Fillol; Jorginho, Leandro, Môzer e Adalberto; Andrade, Hélder, Adílio e Tita; Bebeto e Nunes. O técnico era Mário Jorge Lobo Zagallo.

O polêmico José Roberto Wright apitou a finalíssima! E se houvesse empate, rolaria uma partida extra. Ou seja, aparentemente as equipes não se arriscariam demais. Ledo engano!

Os primeiros movimentos da peleja decretaram um certo equilíbrio, mas o Flu era mais incisivo, e seus ataques (e contra-ataques) assustavam muito mais a zaga inimiga. Inclusive, a etapa inicial manteve essa tônica no decorrer dos 45 minutos.

Víamos um Tricolor melhor dentro das quatro linhas, com boa posse de bola e alternância de jogadas (aqueles lançamentos longos e improdutivos do Fla-Flu da temporada anterior pareciam definitivamente esquecidos), e buscando insistentemente as jogadas com os laterais Aldo e Renato. Além disso, a bola girava mais pelo nosso meio-campo. A entrada do Don Romero, naquele certame, deu o toque de qualidade de que prescindimos um pouco em 1983.

E o Flamengo tentava tocar a bola e explorar os contra-ataques, mas esbarrava no nosso excelente sistema defensivo. Mesmo com a nossa zaga um pouco mais pesada, pelo fato de o Vica substituir o Ricardo, mantivemo-nos firmes na cozinha. Ainda assim, os caras nos pregaram alguns sustos… Oras, era uma final e o time Molambo era bom também.

Depois de algumas panes lá atrás, quando o Fla teve oportunidades não tão evidentes de abrir o marcador, aos 10, 12 minutos, Romerito meteu um lançamento rasteiro genial para a escapada de Washington pela direita. O nosso camisa 9 invadia o território inimigo em diagonal e foi calçado por trás pelo Andrade, quase na linha da grande área. Falta clara consignada pelo Wright, mas nada de cartão. As recomendações da FIFA para este tipo de jogada hoje são distintas, e estranhei a ausência de punição revendo o lance.

Mais adiante, numa ótima trama pela direita, após incrível tabela entre Aldo e Renê, este último alçou a bola na área rubro-negra e o Washington, sozinho, testou mal, nas mãos do Fillol. Chance claríssima de gol. Verdade que não me recordava desta jogada. Eu e os mesmos camaradas da final de 1983, exceto o Medaglia, deveríamos estar em estado catatônico naquele Maraca com 153.522 mil cabeças! Recorde absoluto de público e renda no ano! Bons tempos!

Renê teve duas boas oportunidades, livre, na linha da grande área: na primeira, chutou fraco, em cima do Fillol; na segunda, bateu esquisito e sem direção. Não eram o forte do volante-meia as finalizações! Mas a entrega e a movimentação, putz!

Numa falta de meio-campo mal cobrada pelo Leandro, o Assis se antecipou ao adversário, meteu uma bola comprida pro Washington, que dividiu com Fillol na risca da grande área rubro-negra. O goleirão bicou pra frente e a redonda sobrou pro Romero, que tentou bater pra meta do meio da rua. Ela sobrou para o nosso centroavante de novo quase na linha de fundo, pela direita, o negão tentou uma bicicleta estranha e quase surpreendeu a todos. Mas o tiro saiu mascado e a pelota morreu de mansinho nas mãos do arqueiro argentino, no lado oposto ao lance.

Na segunda etapa, o combate permaneceu pegado, com muita marcação de ambas as partes. Os meios tentavam jogar, mas Andrade e Hélder de um lado, e Leomir (um leão), Renê e Romerito do outro via de regra venciam as estocadas dos oponentes no mano a mano ou cortavam as tentativas de enfiadas, lançamentos e passes mais acurados. Então, a fluidez das equipes não predominava. Ainda assim, o Flu voltou melhor do que o adversário… mas o jogo pegava fogo, vez por outra, e contagiava as duas torcidas. “Nensêêê” de um lado; “Mengôôô” do outro!

OK! Teve cruzamento de Romerito da direita que o Assis quase testou; teve outra jogadinha pela direita, do Renê, que o Assis cabeceou para a boa defesa de Fillol a escanteio. Também teve córner olímpico de Romerito, que beijou o travessão do hermano, uma defesa sensacional do Paulo Vítor, de mão trocada, num tirambaço do Hélder de fora da área. E ainda teve uma falta providencial do Vica sobre o Tita, na entrada da nossa cozinha – que não resultou em nada; houve uma outra catada segura do Paulo Vítor, no seu canto direito, num chute do Tita; enfim…

Mas vamos ao que interessa! Erro de passe bobo do Fla lá na direita do seu ataque, e a bola perdeu-se em lateral, pois o Jorginho a deixou escapar. Renato bateu para Vica, que tocou a Duílio, tudo isto no nosso campo de defesa. Duílio esticou a Leomir, no meio, que devolveu a pelota a Vica. Ela foi aprofundada a Leomir novamente no meio, e o volante tocou a Renê. O então camisa 8 passou de lado pro Aldo e se projetou pela direita. Aldo recomeçou a jogada com Duílio, já na linha de meio-campo. O zagueiro arrancou, livrou-se da marcação de Tita e rolou um bolão para Renê, já na intermediária rubro-negra. Percebendo o lateral Aldo entrando como uma flecha, Renê lançou a bola nas costas de Adalberto. O nosso ótimo lateral-direito foi ao fundo e cruzou no meio da área. O Carrasco Assis subiu, livre, e cabeceou sem chances de defesa no canto esquerdo alto – e no contrapé – de Fillol. Gooooooooooooooooooooooool do Fluminense! PQP! Alegria, êxtase, comoção, arrepios… Passo gigante para o bi-Estadual!

A partir daí, nos últimos 15 minutos o Flu recuou e os caras partiram pra dentro. Pronto, já estava eu mais uma vez nervoso diante da TV, mesmo sabendo o desfecho da “guerra”! Tivemos uns poucos contra-ataques improdutivos, e no final, tudo deu certo: A benção, João de Deus! Fluminense um a zero e mais um caneco na Sala de Troféus das Laranjeiras!

Partidaças de Duílio – de novo, Aldo, Renê e Romero, este, pra mim o melhor. Ah, e do Assis, é óbvio! Uma cabeçada daquela, no nosso único tento (de título), deslocando o Fillol, supostamente apagaria quaisquer besteiras que ele pudesse ter cometido no gramado. E olhem que o Carrasco foi bem! É (muito) crédito que se fala, né?

Contudo, o Flu, num todo, fez boa exibição. É que se tratava de um clássico, caramba, e do lado oposto havia um grande time, com atletas remanescentes de conquistas relevantes, em temporadas anteriores.

O Paulo Vítor, por exemplo, foi o melhor goleiro que vi no Flu. Não tive a felicidade de acompanhar Marcos Carneiro de Mendonça, Batatais, Castilho e Veludo – por razões evidentes, mas convivi com Félix, Nielsen Elias, Jorge Vitório, Renato Aranha Negra, Cavalieri e outros. Paulo Vítor tinha uma qualidade rara até mesmo nos arqueiros atuais: ele não temia sair do gol para interceptar cruzamentos. Cometia até alguns poucos vacilos neste quesito, mas via de regra a pelota era dele! Neste Fla-Flu de 1984, o cara não deu rebotes ou cortou diversas bolas centradas na nossa área! Ele é o camisa um intocável do meu Flu de todos os tempos!

Outras evidências: rever este Fla-Flu me reafirmou a capacidade do becão Duílio. Ótimo zagueiro, mesmo não sendo um virtuoso e convivendo com certa antipatia de parte do povo. Da mesma forma, acompanhar o Aldo atuando foi bom demais! Um lateral à frente do seu tempo, pois marcava e apoiava com a mesma desenvoltura – tudo o que se exige de jogadores da posição atualmente! Também a versatilidade, a entrega tática e os pulmões do Tato. Além de um ponta-esquerda efetivo, que partia pra dentro dos seus marcadores, o malandro recompunha o meio e a própria defesa com correção. Várias vezes o vimos marcando (bem) o Jorginho lá na nossa lateral-esquerda defensiva. O Renê era um azougue. Não descansava! E Romerito dispensava comentários… Cracaço! O Fluminense tinha em seu farto elenco belos jogadores, prova disto é que ainda beliscamos o Brasileirão deste mesmo ano!

Por último, os vinte atletas de linha em campo se doaram ao extremo, correram os 90 minutos, não houve substituições, e também não houve o mimimi do desgaste físico e de jogadores poupados. Outra época? Sei não, somente quem tiver a oportunidade de assistir novamente ao clássico é que poderá chegar a conclusões semelhantes às minhas.

Em suma, missão cumprida! Mais um texto, mais um regozijo e uma certeza inequívoca de que amar o Fluminense Football Club é parte íntegra da minha existência.

Na próxima, falarei sobre Flu e Bangu, da decisão do Campeonato Carioca de 1985. Vem mais emoção por aí, galera! Força e fé no combate ao coronavírus e paciência na quarentena! O ser humano é maior!

Saudações eternamente tricolores!

Ricardo Timon

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