Abaixo do mínimo aceitável




Foto: Vinicius Toledo / Explosão Tricolor

É fim de Junho. Depois de uma longa parada, por conta da pandemia de Covid-19, voltamos ao futebol com uma vexatória derrota por 3 a 0, diante do Volta Redonda. 

Até aqui, eliminação na 1ª fase da Sul-Americana, derrota na ida da 3ª fase da Copa do Brasil, diante do Figueirense, eliminação na semifinal na Taça Guanabara. Desconfiança do trabalho, futebol fraco. 

Vieram as finais do ex-campeonato Carioca, contra o time do sistema. Odair tira o Dodi da manga e muda o esquema: sai o 4-4-1-1, entra o 4-3-3, com os três volantes. Assim, jogamos uma final honesta, apesar da diferença de preparo físico e tempo de condicionamento.

Em relação ao que tínhamos mostrado até então, foi um avanço. Mas não era suficiente. Ok, conseguimos segurar um adversário superior, mas, para o Brasileiro, faltava repertório. Teríamos também que saber atacar.

Só que enquanto buscávamos os melhores caminhos… pumba! Vendemos o Gilberto, lateral importante, líder, forte, de imposição física. Ficou o Julião por ali mesmo.

Aí começou o Brasileirão. Jogos parelhos. Luccas Claro ganha a posição. Derrota. “Esse Michel Araújo joga bola, ein”. Empate. Uma chance para o Yuri. Vitória. “E se abrir o uruguaio pelo lado?” Derrota. Nesse vai-e-vem, no 4-2-3-1, Odair achou o time, e vieram três vitórias seguidas. Agora vai! 

Não foi. Tivemos dois resultados adversos. Faz parte, nosso time não é brilhante, vai oscilar mesmo. Mas, depois de muito testar, achamos a melhor formação. “Vamos brigar!”, pensava o torcedor mais inocente, baixinho, para evitar a zica. 

E daria para brigar mesmo. Mas, novamente, nossa evolução será cortada pelo extracampo: um mês depois de perdermos o Gilberto, titular indiscutível, sai Evanilson, o melhor jogador do time no ano.  

Aí fica complicado, né galera? Mas esse tipo de frustração, infelizmente, nos é muito familiar.

Em 2017, no final de Julho, vendíamos o Richarlison, nas vésperas da 18ª rodada do Brasileiro. O atacante era o destaque do time, com 15 gols na temporada, em ascensão meteórica. Mas precisávamos pagar a conta deixada pela gestão anterior, ao menos parte dela.

Em 2018, no início do ano, foram vendidos Dourado, artilheiro do time no ano anterior e Wendel, dos melhores do elenco. Outros titulares foram emprestados, para que não precisássemos arcar com os salários: Wellington Silva, Orejuela e Léo Pelé. O melhor, Scarpa, saiu na Justiça por falta de pagamento de salário. Henrique e Cavalieri foram mandados embora, junto com outros coadjuvantes. Nove titulares perdidos.

Apesar disso, não sobrou um real para investir, e fomos para o Brasileiro com um catadão dos remanescentes, alguns reforços e de promessas da base. Sobrevivemos à queda aos catrancos, com grande temporada de Pedro (até a lesão), Ayrton Lucas e Ibanez. Não sem perder titulares ao longo do ano: Luan Perez, Renato Chaves e o volante Douglas.

Em 2019, mais quatro titulares vendidos na pré-temporada: Richard, Ayrton Lucas, Sornoza e Ibanez. De novo, não sobrou muito. Mas não parou por aí: já na primeira rodada do Brasileiro, perdemos Everaldo, então destaque do time. Logo após, saiu o Luciano. Não aguentava mais receber atrasado. Depois foi o Pedro, que só não foi antes por conta de lesão. 

Pessoal, não dá. A gente tem boa vontade, pede treinador estrangeiro, futebol bem feito. Mas a realidade é outra, estamos longe do mínimo aceitável. 

Não existe futebol profissional de alto nível com o elenco sendo montado e desmontado no decorrer do ano. É um esporte coletivo, requer treinamento, criar coletivo, entrosamento.

Muito menos sem pagar salário em dia. Já é o quarto ano que não conseguimos regularizar essa questão em definitivo.

Chega disso! Esses dois problemas são básicos. Obviamente, não é razoável exigir que sejam resolvidos de um dia para o outro pela nova gestão – já não tão nova assim. 

Mas ela precisa ser sincera com a torcida. Precisa trabalhar duro, respeitar o torcedor e se comunicar honestamente.

Qual é o nosso plano para voltar a pagar em dia e não atrasar mais? Tá, eu sei que o Mário quer mais sócios e acredita em resultados melhores nesse ano. Mas, nessa condição, podemos nos dar ao luxo de colecionar veteranos no elenco, como estamos fazendo? Tínhamos condição de ter feito uma oferta de 17mi pelo Allan? 

E quando poderemos pensar em ter um bom trabalho, construído aos poucos, para o longo prazo, sem precisar vender todo mundo e inventar um time do zero a cada Janeiro? Ou, ao menos, não perder titulares no meio da temporada? Qual é a nossa estratégia para isso? Qual é o prazo necessário para solucionarmos essas duas questões que nos assombram?

Não é uma situação de fácil solução, isso é incontestável. Só que precisamos de eficiência, afinal, com recursos tão escassos, não se pode errar; precisamos de transparência, já que o clube existe para agradar a sua torcida; e, sobretudo, precisamos de um horizonte.

Segundo o clube, não tivemos voz na decisão de vender ou não o Evanilson. Pode ser. É necessário, então, que nos seja informado quem são os responsáveis por determinar com quais jogadores da base tentamos renovar. Quais são os critérios? Alguém foi responsabilizado? Houve um erro crasso de avaliação, que nos custou o centro avante titular. Quanto custa um camisa nove?

Aliás, de acordo com o orçamento do ano (aprovado só em agosto!!), esperamos arrecadar 70 milhões com transferências em 2020 para fechar o ano. Pelo que foi divulgado, já foram mais ou menos 9 milhões com o Gilberto, mas 13,5 milhões com o Evanilson. Façam as contas.

Em 2017, Wendel teve que mostrar futebol aos 19 anos. Já em 2018, Pedro e Ayrton tinham 20 e Ibanez, 19. Em 2019, João Pedro tinha 17 e Marcos Paulo, 18. Nesse ano, Evanilson já tinha 20, mas o Calegari, alçado às pressas à titularidade, tem 18. Até quando Xerém aguentará nos salvar dentro e fora de campo? 

E outra: quando poderemos pensar em subir os bons jogadores da base aos poucos, sem precisar colocar na fogueira, e segurar até os 22, 23 anos? 23, aliás, é a atual idade de Gerson e Pedro, formados em Laranjeiras e campeões de tudo no rival. Também é a idade em que Pepê, cria do Grêmio, precisará pela primeira vez assumir o posto de titular, para substituir Cebolinha, vendido.     

Voltando ao mundo real. Odair, como eu disse lá em cima, tinha achado o esquema: três bons jogos seguidos, contra CAP, Figueirense e Vasco. Contra o Atlético Goianiense, o jogo estava tranquilo até a expulsão do Hudson. Contra o São Paulo, um primeiro tempo razoável seguido de 45 minutos terríveis. Mas tudo dentro das oscilações esperadas para um time do nível do nosso. A ver como ficaremos agora sem o nosso centro avante. Pelo menos até venderem o Marcos Paulo e o treineiro ter que se virar de novo.

VENCE O FLUMINENSE!

Tarik Moussallem

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