Brinquedo proibido




Felix (Foto; Divulgação)

Buenas, tricolada! O tema é controverso, as conclusões são íntimas e a democracia tem que prevalecer. Sempre! Mas as fórmulas definitivas e inegociáveis que os microfones e artigos nos impõem via de regra causam dolos. Especialmente porque as opiniões são pessoais, ainda que mutáveis, ante os fatos.

A verdade é que a mídia em geral, e sabemos disto não é de hoje, elege e condena personagens e narrativas ao seu bel prazer. Santificam-se e satanizam-se seres humanos e acontecimentos históricos com a mesmíssima facilidade de uma simples troca de cuecas! A informação e o entretenimento perderam-se na ausência de uma outrora saudosa e salutar magia… E seus interlocutores fazem uso atualmente aos seus auditórios de uma espécie de brinquedo proibido inconsequente.

O Fluminense Football Club, por exemplo, foi crucificado sem prévio julgamento diante de alguns discursos maledicentes dos formadores de conceitos. A imprensa e muitos dos seus representantes, aliados aos poderes do desporto e afins, taxaram-nos de delinquentes, mau carácteres e trapaceiros, nas piores acepções dos termos. Ou alguém se esquece da nossa alcunha de “viradores de mesa” e suas sequelas?

Nenhuma alma benevolente primou pela busca da veracidade daqueles episódios e casualidades que nos envolveram em inúmeros imbróglios – e mentiras. O veredicto, sem direitos de defesa: o Flu é culpado! Ponto! É o tal de share of mind (fatia de mente) do mal que povoa as convicções e ideias dos que fraquejam os seus supostos espíritos aventureiros e curiosos… Aqueles que, como vários de nós, procuram o fio da meada, e não se contentam com o primeiro verso mal redigido de um falso poeta! Recorrente em terras tupiniquins, né não?

Bem sabemos que a nossa defesa institucional falhou bastante durante todo esse período. Faltou gente pra porrar a mesa, chutar o balde e mandar esses incautos aos colos de suas progenitoras de conduta duvidosa! Vocês entenderam a minha analogia, eu sei…

Pois é, mas as novidades se fazem cada vez mais presentes e constantes nos veículos de comunicação! E os “top models” que se apresentam na frente das câmeras ou por trás dos textos permanecem incólumes nas suas caminhadas que visam a destroçar trajetórias, de acordo com as suas impressões. Mágoas? Danem-se os ofendidos!

Lembram-se de que mencionei a importância da democracia, lá no comecinho? Ratifico: ela é premente, assim como a liberdade de imprensa! Mas as responsabilidades de diversos relatores e representantes da cadeia de comunicação têm que ser cobradas… Pelos editores, pelo público, enfim, por aqueles que não se conformam com a maneira cruel com que se destroem cursos e históricos! Sermos antônimos não significa que sejamos desrespeitosos!

Há poucos dias, o SporTV reprisou a campanha épica do Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970. Um regozijo aos que contemplam o futebol bem jogado e repleto de gênios!

Curtimos todos os jogos. Muitos, como eu, com nostalgia, apesar dos tenros 8 aninhos, e outros, como grande parte dos usuários de mídias sociais, pela primeira vez.

Sobre a competição e a época, alguns fatos devem ser lembrados, e tal debate é no mínimo curioso. Em primeira instância, sim, o futebol na ocasião era diferente. Havia mais espaço em campo, mais tempo de raciocínio e mais efetividade dos ataques contra as defesas.

Em segundo lugar, não aceito a trama sórdida de uma lista interminável de incrédulos imprudentes, que afirmam, taxativos, a seguinte máxima: os jogadores do passado não atuariam no futebol de hoje. É o catso! Jogariam e dariam show! Temos que projetar e adaptar os tempos idos às necessidades do mundo moderno com proporcionalidade.

Se o preparo físico da maioria dos atletas das décadas anteriores era diferente, como contraponto as exigências de então eram perfeitamente cumpridas. Enxergo como óbvias a adaptação e o encaixe dos atletas ao desporto praticado nos dias atuais. Questão de evolução natural darwiniana.

A semântica do enredo denota fatos inquestionáveis: em 1950, 60, 70, 80 e talvez 90 havia muitos mais craques espalhados pelo planeta bola, inclusive nos clubes nacionais. Os camaradas eram bons pra cacete! Quem vocês escolheriam no par ou ímpar? Capita ou Dani Alves? Clodoaldo ou Casemiro? Gérson ou Artur? Tostão ou Jesus? Rivellino ou Philipe Coutinho? Pelé ou Firmino? Jair ou David Neres? É evidente, reiterando, com as condições fisiológicas dessa galera equiparadas a 2020!

Em terceiro, OK! OK! Jogadores como Neymar (se demonstrasse mais comprometimento), Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Romário, Zico, Reinaldo (do Galo), Júnior, Sócrates, Leandro, Careca e Roberto Carlos, por exemplo, além de poucos mais, muito provavelmente poderiam ser incluídos nas convocações das antigas décadas, mesmo com o universo do futebol povoado mais à miúde de gênios. Contudo, reparem na quantidade de valores que, porventura, disporíamos para a tal lista, de 1990 ou 2000 pra cá! Pouquíssimos!

Em quarto e último, devemos considerar os equipamentos, regras, campos, tecnologias, condescendência das arbitragens etc entre uma década e outra. Covardia comparar performances sem as devidas igualdades de circunstâncias e aparatos. Resumindo: quem é bom joga em qualquer época e em qualquer mercado! Pelé marcaria mais de mil gols hoje? Sim! Não! Quem sabe! Mas não deixaria de ser extraordinário.

Em 1970, apenas como referência, para escalar os melhores, o técnico Zagallo optou por Wílson Piazza na zaga (era volante no Cruzeiro), Clodoaldo e Gérson como volantes-meias (eram meias em Santos e São Paulo, respectivamente), Jair de ponta-direita (era centroavante no Botafogo), Tostão de centroavante (era o camisa 10 do Cruzeiro), e Rivellino de ponta-esquerda (era o 10 do Corinthians também)! E gente como Ado e Leão, Zé Maria, Marco Antônio, PC Caju, Edu, Dario e Roberto Miranda esquentaram banco. Dirceu Lopes e Ademir da Guia sequer foram convocados!

O futebol, assim como a vida, está em constante mutação. Nada impede que daqui a 50 anos o desporto esteja ainda mais físico, mais rápido e veloz, e mais intenso do que o de hoje em dia. Oras, portanto, utilizar esse tipo de argumento comparativo consiste em anacronismo, onde avaliamos fatos históricos com base em valores do nosso tempo. E, no futuro, poderemos ser as vítimas desse mesmo tipo de argumento tolo.

Retomando a matéria, os narradores e comentaristas escalados pela emissora para a transmissão do evento no México, em 1970, usufruíram dessa tal acareação anacrônica.

Contra o Peru, quando vencemos por 4×2, os malandros desencadearam críticas ao goleirão Félix como se vivessem naquele período, e dispenderam elogios e reverências ao arqueiro Gordon Banks, da Inglaterra, que sequer era o alvo da retransmissão. Menosprezaram! Minimizaram o enorme, vencedor e glorioso currículo de Félix Miéli Venerando!

Sem conhecimento de causa, sem acompanhar os antecedentes dos jogadores de uma e outra equipe, simplesmente os malandros abriram o verbo descaradamente! No mínimo um despropósito com os alfarrábios do esporte e com um goleiro Tri-Campeão do Mundo!

Enfim, os canais de TV que se dispuserem a homenagear os heróis do passado, sugiro que se preocupem em escalar profissionais que tenham convivido mais proximamente com o período cronológico do objeto da homenagem – ou tenham maiores conhecimentos. Creio que estes sujeitos seriam mais fidedignos e antenados às trajetórias dos eternos monstros sagrados, que ajudaram a escrever a infinita trajetória do futebol brasileiro ao longo dos séculos!

Ou mantenham as narrações originais, que transportavam pelo tempo e distância a emoção e a alegria com os nossos triunfos, além da reverência a estas fiéis e autênticas entidades ungidas e canonizadas pelo planeta bola!

Saudações eternamente tricolores!

Ricardo Timon

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