Dissecando a sequência ruim do Fluminense




Foto: Mailson Santana / Fluminense F.C.

O futebol segue sendo duro com o torcedor tricolor. Após breve período de boas partidas, o rendimento da equipe caiu demais e a luz amarela volta a dar o tom nas Laranjeiras.

A partir do início do Brasileirão, que é quando o ano começou de verdade, penso que tivemos três momentos bem distintos.

Nas primeiras quatro partidas – Grêmio, Palmeiras, Internacional e Bragantino -, ainda estávamos no final de um longo processo de encontrar a melhor formação. Odair testava esquemas táticos, titulares improváveis ganhavam espaço… Ali, oscilamos entre o bom e o mal futebol, contra adversários fortes.

A partir da quinta rodada, as dúvidas foram sanadas e o treineiro encontrou o time. Agora jogamos no 4-2-3-1; os dois volantes atacam e defendem, mas também não se mandam tanto; Nenê e Evanilson são os pilares na frente; Marcos Paulo vai jogar aberto mesmo; Luccas Claro, Calegari, Yuri, Dodi e Araújo são titulares. Com essa base, tivemos uma boa sequência de três vitórias seguidas (Athletico, Vasco e Figueirense) e um empate contra o Atlético – GO, em jogo atípico, no qual jogamos com um a menos desde o primeiro tempo.

As boas atuações duraram pouco, e veio a sequência ruim que ainda não superamos: derrotas para São Paulo e Coiso, vitórias contra Corinthians e Atlético – GO (Copa do Brasil), derrota diante do Sport. Aqui, salvo o jogo contra o Corinthians, fomos bastante mal.

Paira uma dúvida na cabeça do torcedor: trata-se de uma oscilação normal para uma equipe do nível da nossa? Ou mudou alguma coisa de fato?

Me parece que seja a segunda opção. Vamos tentar, então, dissecar os aspectos que marcaram essas últimas partidas:

1) Odair, que antes tivera méritos ao achar a melhor formação, errou demais. Desde o empate contra o Atlético – GO, escalou errado, com a volta do slow motion Hudson contra uma equipe que gosta de jogar em velocidade. Sem ritmo, foi expulso logo no primeiro tempo, apesar do maior culpado ter sido o Nino, que errou o passe na saída (de novo). 

Errou novamente contra o Coiso, ao abrir mão da formação que tinha encaixado, com medo do rival, e posicionar Nenê como falso 9. E, de novo, errou contra o Sport, ao escalar Yago, em péssima fase, aberto na direita, tendo Pacheco e Miguel como opções. Nessas duas, mais doído que as escolhas ruins foi a demonstração de covardia, um excesso de zelo de quem tem medo de jogar. Nas últimas 6 partidas, em 3 Odair escalou errado.

2) Muitos jogadores caíram demais fisicamente. Desde o final do clássico contra o Vasco, nossa equipe dá sinais de cansaço, em especial Dodi, Michel Araújo e Nenê. E é normal que seja assim, já que, por conta da pandemia, foram 13 jogos em mais ou menos um mês e meio até aqui. 

O erro está em não rodar o elenco. Odair só poupou jogadores em duas partidas, ambas em véspera de jogo de Copa do Brasil, o que evidencia outro erro, de prioridade. Ora, nossa maior esperança (voltar à Libertadores) e ameaça (rebaixamento) dependem dos resultados no Brasileiro. 

Como também não é recomendado abrir mão do único caneco no ano que ainda temos alguma chance de levantar, penso que deveríamos rodar o elenco aos poucos, como fazem os gringos do Inter e do Galo. Aliás, sequer há distância abissal entre nossos titulares e reservas que impeça isso, como ocorria nos anos anteriores, aos menos na maioria das posições.

3) Inícios ruins. Contra o São Paulo, tomamos 2 gols em 10 minutos, na volta do intervalo. Já contra o “Coiso”, entramos sonâmbulos e eles marcaram aos 7. E contra o Sport, foi aos 10. Portanto, em 5 partidas, houve episódios desse tipo em 3. 

Em todas, saímos derrotados. É fatal para um time que não sabe criar. Aliás, a incapacidade de furar retrancas gritou: contra o rival, contra o Sport e contra o Atlético Goianiense. 

4) Evanilson foi vendido. Essa venda marca o início da descida de ladeira. Afinal, além de perdermos nosso melhor jogar no ano, o sistema ofensivo não conseguiu se adaptar. Acontece que o time de Odair tem padrão de jogo, que eu pessoalmente não gosto, mas tem, de pouco sofrimento, mas que também cria pouco. Portanto, precisa ser cirúrgico para aproveitar as raras oportunidades. 

Sem o centroavante, vice artilheiro da temporada, só sobrou o Nenê com mínima afinidade com o gol, dadas a má fase do Marcos Paulo e o desfalque recorrente do Fred. Justamente após o treineiro encontrar a melhor formação, a diretoria fez questão de jogar contra. Somado a isso, Wellington Silva e Pacheco seguem mostrando muito pouco.   

5) Antigos problemas persistem. Primeiro, as más fases de Nino (entregou na primeira contra o Atlético – GO e contra o São Paulo) e Marcos Paulo persistem, apesar de terem melhorado um pouco nos últimos jogos. Olho neles, são bons de bola e podem retomar um bom nível a qualquer momento. 

A segunda é a autossabotagem promovida pela diretoria, com o desfazimento do elenco no meio da temporada. Antes da primeira partida, foi o Gilberto. Já foram 13 partidas sem reposição. Agora, Evanilson. Cinco partidas sem reposição. A solução foi improvisar moleques de 18 anos nas funções. Nada contra os garotos, que, aliás, têm futuro, mas é uma sacanagem dar a eles a responsabilidade de resolver nessa idade, sem sequer terem sido testados no Carioca. E não se enganem, o próximo da fila é o Marcos Paulo. 

Por fim, se não há reposição na direita, na lateral esquerda o reforço era terceira opção no Botafogo.

Estamos diante de um momento delicado. Por um lado, não há muitos indicativos de que esses problemas serão sanados. Aliás, apesar dos erros, sigo contrário à demissão do Odair, que conseguiu dar algum padrão à equipe. Por outro, nossos próximos confrontos tendem a ser menos difíceis: Atlético GO (Copa do Brasil, fora), Coritiba (casa), Botafogo, Goiás (fora), Bahia (casa). E mais: tudo muda muito rápido até aqui. Para ter noção cada um dos nossos três momentos no Brasileiro duraram pouco mais de 10 dias. 

EGÍDIO: egidou, mais uma vez. Em 89 minutos, eu nem o acho tão ruim assim, comparado à média da posição. Mas, naquele 1 minuto, câimbras mentais o fazem entregar pontos preciosos. Foi assim contra Volta Redonda, Flamengo (Carioca), Grêmio, Bragantino e Sport. Chega. 

ATÉ AQUI NOS ANOS ANTERIORES:

2018 – Brasileirão: 14 pontos (11ª colocação); Sul-Americana: classificado à 2ª fase, após eliminar o Nacional Potosí-BOL; Copa do Brasil: eliminado na 3ª fase pelo Avaí.

2019 – Brasileirão: 9 pontos (17ª colocação); Sul-Americana: classificado à 2ª fase, após eliminar o Antofagasta-CHI; Copa do Brasil: classificado para as oitavas de final, após eliminar o Santa Cruz.

Vale dizer que insisto em comparar com as temporadas a partir de 2018 porque este foi o primeiro ano que nos planejamos após termos a noção do rombo deixado pela gestão Peter Siemsen. É o ponto mais baixo do clube desde a saída da Unimed, que revelou o tamanho da nossa pobreza. A recuperação, portanto, começa a partir dali.

VENCE O FLUMINENSE!

Taik Moussallem

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