Média sem pão e manteiga




Orinho (Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC)



Buenas, tricolada! Esperei o segundo jogo do Flu pelo Cariocão no pós-isolamento social para me pronunciar aqui neste espaço. Um necessário apanhado, de acordo com as minhas análises e observações, deve ser tratado e debatido. E provavelmente pranteado!

O Fluminense é gigante, e não um clube nota 5. Então, não poderia ou deveria viver de médias! Se buscarmos balanços e comparações dos nossos próprios resultados, atuações e também a nossa proeminência na memória do futebol brasileiro, constataremos, contritos, que vimos subsistindo de meios-termos nas últimas temporadas. Não combina com a nossa biografia. Ponto! Neste 2020, essa máxima é ainda mais latente: um razoável show de bola numa hora, e, na sequência, um vexame! Uma boa jogada e um golaço e, consequentemente após, uma lambança e um gol contra!

Se fora das quatro linhas, por intermédio de sua nova gestão, o FFC demonstra forças para tentar reagir, dentro delas é crise atrás de crise. Atletas sem a mínima condição de vestir a nossa armadura e comandantes mequetrefes desfilam nas nossas linhas de frente, entra ano, sai ano.

Chover no molhado

Como todos sabem, já que descrevi os meus conceitos íntimos e formas de conduta pessoal no Explosão Tricolor algumas vezes, não tolero apontar dedos e “queimar” pessoas – e profissionais – a troco de simpatias ou antipatias. Além do mais, sou inimigo daqueles chatos e pusilânimes decretos de verdades absolutas… A vida e mesmo o desporto via de regra nos prega peças, desdiz os nossos dogmas e transforma-nos em inseguros mentirosos.

Mas dois fatos se fazem prementes neste instante de dúvidas: em primeiro, sabido há tempos, o lateral-esquerdo Orinho é uma péssima invenção da cúpula de futebol do Flu. Não marca, não apoia, erra passes bobos, não dribla, corre errado, posiciona-se mal, não sobe de cabeça, cruza (quando cruza) como se estivesse batendo um tiro de meta, ultrapassa a linha da bola quando deveria segurar e posta-se atrás quando tinha de avançar – e dar melhores opções de jogadas aos companheiros…. Por fim, ele é o típico jogador que não atende às necessidades mais básicas de um grande clube.

Em segundo lugar, há pouco tempo confirmado – sob os meus auspícios, o Odair Hellmann não tem o DNA tricolor – e nem competência. Tenho passado esse período sabático, de quarentena e medo, relembrando o ano de 2020 do Fluminense dentro de campo. Ratificando os primeiros parágrafos, vimos partidas exuberantes, ainda que diante de adversários menos qualificados, e outras tantas risíveis, que nos encheram de raiva e desesperança futura. Eis novamente a tal da média a que me referi lá acima, lembram?

Não aprecio a interrupção de trabalhos na metade – ou no começo – de suas trajetórias, mas às vezes é mais negócio cortar o mal logo na raiz para evitar que ele cresça e dê frutos apodrecidos e indigeríveis. Adiar o inevitável para daqui a pouco pode representar, naquele novo momento, até uma solução emergencial, mas tardia!

Desejo a demissão do Odair, entretanto, o meu temor infinito remonta o seguinte postulado: quem o substituiria? Não há mercado, bons treinadores dando sopa (tenho dúvidas se há bons técnicos no Brasil hoje em dia), grana nas Laranjeiras e nem vontade de a diretoria trocar a Comissão Técnica, por enquanto. Um gringo, quem sabe um recurso bem-vindo, requer tempo de adaptação e paciência de todos para implementar verdes arbítrios – no Brasil e, especialmente, no Fluminense, duvido que haja tolerância e respaldo. Pois é, não enxergamos o horizonte!

Gosto do Cuca, talvez o único que se encaixe nas nossas carências atuais, e temos bons motivos para adorá-lo. Contudo, não fazemos a mínima ideia como anda a sua saúde. Não sabemos se ele toparia um retorno. Não há indícios de que Mário Bittencourt e Cia. possam tramar um movimento para repatriá-lo. Temos a noção de que o seu preço está acima das nossas mais benevolentes possibilidades. Há certezas, apenas, de que o senhor Alex Stival vive um inferno astral! O viés de baixa tornou-se seu companheiro desde as últimas conquistas com o Palmeiras – e já se vão pares de anos. Sim, mesmo diante de todos estes senões, eu pretendo revê-lo já em Álvaro Chaves.

A equipe(?)

Presenciamos um teatro de horrores dos nossos guerreiros contra o modestíssimo Volta Redonda, no retorno aos gramados, no último domingo: frango de Muriel, zaga batendo cabeça, laterais omissos e equivocando-se em todas as ações, meio-campo inexistente na criação e dando inúmeros espaços para os contra-ataques rivais, Evanílson e Pacheco perdendo gols em profusão, desentrosamento, falta de jogadinhas simples, que fazemos em peladas, substituições absurdas do Prof. Pardal que rondava o espaço reservado a treinadores… Putz! Numa boa, 3×0 contra foi quase barato! Dia pra esquecer!

O bom sintoma foi a reestreia de Fred, mesmo não sendo efetivo como de costume. Não sabemos se ele brilhará nessa nova fase tricolor, mas, para uma camarada de 36 anos e desentrosado com o restante do grupo, encarei como alvissareira a sua participação nos 45 min. em que esteve em campo. Se o nosso capitão e artilheiro não brilhou, decerto ele foi o menor culpado.

Todavia, dois jogadores do Fluminense merecem negativo destaque neste texto, e seguramente transformaram-se nos maiores vilões do desastre ante o Tigre da Cidade do Aço: Egídio e PH Ganso! Os episódios de que foram protagonistas em mais de 90 min. de bola rolando estarreceram os mais céticos e incrédulos torcedores mundo afora.

Sobre o lateral-esquerdo, multa, punição e geladeira são castigos poucos. Aquela tesoura voadora criminosa no oponente, antes da metade da etapa inicial, deveria render-lhe um camburão, ao final do duelo. E suspensão imediata de suas atividades no clube, temporariamente. Mas daí advém o meu grande receio: se ele perder a vaga, quem entra é o Orinho! Valha-me Deus, nosso criador! Sou mais apostar na base… quem sabe o Marcos Pedro? Pois é, venderam/emprestaram o Mascarenhas, o César, pelo que parece o Marlon, que é bem mais ou menos, não faz parte dos planos… Dureza!

O camisa 10 tricolor, neste fatídico confronto, me fez lembrar dos raros capítulos da série Walking Dead que parei pra testemunhar. Ele nos concedeu o desprazer de contemplá-lo em campo até a metade do segundo tempo, somente caminhando – com dificuldades, sobre o tapete verde do Maraca. Tal qual um idoso aposentado, que passeia com o seu poodle no calçadão de Copacabana, nos domingos ensolarados do Rio, tomando suquinho de acerola com laranja!

Retomando o tema Odair Hellmann, apenas para descaracterizar quaisquer perseguições, o cara escala mal, mexe pior ainda e, mesmo equipado com óculos que lembram mais um binóculo de infravermelho, não vê um palmo adiante de seu nariz! Ou então, malandragem, a sua leitura a respeito de futebol é a mais desacertada possível – talvez a mais confusa e enganada com que pudemos conviver em séculos desse esporte cativante! O que vinha mal, até a expulsão irresponsável do tal Egídio, tornou-se ainda mais crítico… Ele sacou o Marcos Paulo para fazer jogar o Orinho! Faça-me o favor!

O podre poder econômico

Preparei um módico discurso para explanar as minhas impressões sobre Flu e Macaé, que garantiu a duras penas, após o retorno do futebol no Rio, e simultaneamente com sobras, a nossa classificação para as semis da Taça Rio, segundo turno do Campeonato Carioca de 2020. Mas não foi possível, né não? A emissora contratada para exibir o torneio, depois de uma briga judicial (inacabada) com os seus queridinhos, de birra, rescindiu unilateralmente o acordo de transmissão. Em eras pandêmicas, sem presença em estádios, resta-nos o chatérrimo minuto a minuto que vários sites propõem na grande rede. E o velho rádio, que foi o meu companheiro neste embate de quinta-feira.

Os glossários que norteiam as necessidades da Rede Globo e do Clube de Regatas Flamengo são covarde e absolutamente impositivos, e defendem somente os seus interesses. Não existe uma intrínseca vontade de coesão por um esporte melhor e mais competitivo, não há a premência de uma disputa limpa e salutar. Vale mais a audiência, os cofres de ambos, os privilégios pessoais em detrimento de um bem maior, a supremacia incontestável sobre os rivais – cada qual na sua área, em suma, as regras do dinheiro têm que prevalecer, por mais amoralidades que elas denotem.

No fundo, depois de (des)curtir a peleja pelo famoso radinho, uma “derrota” de 0x0, xoxa, insossa, sem graça, contra uma equipe do Norte Fluminense desmantelada pelo novo coronavírus, ergui as mãos aos céus por não tê-la acompanhado. O Macaé, um dos mais frágeis times da competição, se não o mais fraquinho, ainda assustou a nossa defesa, nos acréscimos. O Fluminense nitidamente esbarra cada vez mais na sua própria incompetência e nas claras limitações de seu treinador. Algo tem que ser feito imediatamente!

Enfim, é difícil aturar os desmandos político-econômicos que transitam pelos meandros do futebol – a bem da verdade, da nossa existência. Por causa deles, também, ficamos à mercê dos podres poderes, como sempre, e quem paga a conta é o cidadão, é o contribuinte.

Da mesmíssima maneira, é duro assistirmos a uma potência mundial do desporto – e de vida – como o Fluminense Football Club conformar-se com metades, mediocridades, e hospedagens coadjuvantes e somente regulares no universo da bola. Ah, e médias! Sem pão e manteiga! Se corrermos contra o relógio e consertarmos o acúmulo de besteiras dos derradeiros anos de dores, ainda dará tempo de recuperarmos a nossa régia, autêntica, fiel e veraz valia. Mas isto passa por uma reformulação de conceitos, e nela, o atual comandante da equipe não terá sítio.

Saudações eternamente tricolores!

Ricardo Timon



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