Nada de hashtag #ForçaFlamengo!




Foto: Divulgação

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Que 2019! Tragédia em Brumadinho, alagamento no Rio de Janeiro, morte de Ricardo Boechat… ainda estamos em fevereiro e tem gente torcendo pro ano acabar. Pancada atrás de pancada! Mas não poderia deixar de contribuir para o debate da catástrofe envolvendo os moleques da base do Flamengo. Quanta tristeza!
Sei que todos estão fartos e, até certo ponto, cheios de ouvirem sobre a desgraça no Ninho do Urubu. Afinal, o assunto está em todos os canais e ninguém busca o entendimento quando o assunto é definir responsabilidade. Por isso eu faço o seguinte questionamento: a hashtag #forçaflamengo tem mesmo razão de existir?
Para responder a este questionamento, temos que olhar o que diz a legislação do país e o que pensa o torcedor comum. Sim, porque a torcida raciocina com a paixão e dificilmente alguém vai aceitar que seu clube do coração tenha alguma responsabilidade nas grandes tragédias nacionais.
Se considerarmos a responsabilidade do clube no campo estritamente jurídico, ele sempre terá a sua culpa avaliada independentemente daquela atribuída à diretoria. No Brasil, em regra, clube de futebol é uma associação e, como tal, uma pessoa jurídica. Assim, eventual indenização pode recair também sobre o Flamengo, sendo que o seu patrimônio deve garantir o pagamento dos valores devidos às vítimas vivas e aos familiares daquelas que faleceram.
Isso não exclui a parcela de culpa dos dirigentes que, em último caso, podem até mesmo responder criminalmente pelo fato. É, inclusive, o que se espera, já que estamos falando de vidas perdidas precocemente por ato irresponsável e, porque não dizer, plenamente previsível pela diretoria. Ou alguém acredita que gambiarra em ar-condicionado é seguro?
No entanto, é compreensível que no pensamento do torcedor o Flamengo não tenha qualquer responsabilidade. Afinal, imagina-se – e não sem razão – que o clube é de propriedade da sua torcida e que os mandatários nada mais são que dirigentes passageiros a serviço do time. Bom, se na prática não é assim, pelo deveria ser, mas no imaginário coletivo da arquibancada é como muitos pensam.
Portanto, durante os dias que sucederam o triste evento, foram comuns manifestações de torcedores rubro-negros dizendo que o clube nada tinha a ver com a situação e jogando a culpa exclusivamente na diretoria. É óbvio que aquele que assim se manifestou está errado porque o Flamengo deve assumir a responsabilidade e buscar minimizar o sofrimento dos familiares. Por mais que dinheiro não retome a vida dos jovens atletas, é a única forma conhecida pela nossa atual estrutura social de pagar por mortes, no mínimo, previsíveis, sem contar, claro, a eventual responsabilidade criminal dos diretores e comandantes do clube.
Pelo pouco que se viu até agora, fica muito claro que os atletas dormiam em contêineres, com ar-condicionado improvisado, em um local que tinha autorização para ser apenas estacionamento e que o Ministério Público, em 2015, comparou a um Centro de Detenção de Menores. Pediu a interdição, o que não foi acatado pelo Judiciário, sendo que quase quatro anos depois veio esta catástrofe.
Fica a revolta de ouvir Reinaldo Belotti, CEO do Flamengo, culpar os picos de energia pela tragédia anunciada, em uma entrevista que não teve a dignidade e nem a coragem de responder às perguntas dos jornalistas e que depois foi desmentida pela companhia de energia, que afirmou não ter havido nenhuma interrupção do fornecimento de luz no local.
Revolta também saber que de 2012 pra cá o clube já recebeu mais de 31 multas da Prefeitura pela manutenção irregular do Centro de Treinamento no local e nada fez, só pagando dez delas. É como se desdenhasse da penalidade imposta e pouco se importasse com as vidas que estavam lá dentro; e parece que foi assim mesmo que ocorreu, até porque o lugar sequer tinha alvará de funcionamento.
Revolta ainda mais saber que o Ninho do Urubu recebeu mais de R$ 10 milhões de renúncia fiscal do Governo do Estado de 2013 pra cá, valor este várias vezes superior àquele devido com as multas que ainda não pagou. Ou seja, descumprir a lei fez bem aos cofres do clube. Inacreditável!
É neste contexto que quinta-feira vai acontecer o Fla x Flu pelas semifinais da Taça Guanabara. Aqui, após muita reflexão, chego à conclusão que ninguém deve desejar força ao clube rubro-negro. Na verdade, até a torcida deles deveria exigir que o clube arcasse integralmente com o dano que possivelmente causou, da mesma forma que exige a contratação de reforços. Só assim, com a pressão popular, este evento não vai cair no esquecimento e terá a responsabilização devida, quer seja do clube, quer seja da diretoria, atual e anterior.
Hoje, ser Fluminense acima de tudo é cobrar uma punição exemplar e rezar pelas vítimas e seus familiares.
Que Deus os abençoe!

Evandro  Ventura

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