Odair Hellmann fala sobre características do elenco do Fluminense, Nenê, Fred, Ganso e muito mais; veja a entrevista na íntegra




Foto: Lucas Merçon / Fluminense F.C.



Em entrevista concedida ao jornal “O Globo”, o técnico Odair Hellmann falou sobre diversos assuntos referentes ao atual Fluminense. Confira a entrevista na íntegra:

Quais os pilares deste Fluminense?

Nosso time é muito organizado. Sendo assim, tivemos que buscar formas diferentes de fazer isso. Num momento fomos mais intensos e velozes. Em outros, foi através da construção, da técnica. A ideia central foi a busca do equilíbrio entre fase ofensiva e defensiva, manter a parte de construção, de jogo técnico do time (de 2019). Vai haver jogos em que vamos ter mais velocidade, em outros teremos menos velocidade e faremos um jogo mais de passes. Acho que conseguimos equilíbrio, organização, intensidade e boa construção.

Em algum momento o time teve média de idade alta…

Antes da idade, jogadores têm características de jogo e performances físicas e fisiológicas. Não adianta ter 20 anos e não conseguir desempenhar fisicamente por causa do emocional. A gente buscou mesclar, sabendo que teríamos que dar oportunidade a jovens que o Fluminense sempre teve. Ainda mais neste momento financeiro difícil. Não é só com meninos que você faz um bom ano.

Em muitos jogos, você ou não utiliza as cinco substituições ou as usa no fim. Mais do que prevenir lesões, pesa o receio de desequilibrar o time?

Primeiro, há uma abertura para cinco trocas, não uma obrigação. Tem que usar da melhor forma para manter parte física, técnica e tática. Mas você só tem três movimentos (janelas para substituir). Contra o Atlético-MG, eu perdi o Pacheco com dois minutos. O time estava bem, mas o Luiz Henrique chegou no limite. Fico com um movimento só e o time estava estruturado. Mexer por mexer, colocar cinco jogadores novos e que não estão na intensidade, pode trazer um mal para a equipe. Se continuarem as cinco substituições, acho que deveriam abrir para quatro movimentos ou liberar. As faltas fazem o jogo ficar mais tempo parado do que trocas.

A perda do Evanilson obrigou você a mudar a forma de atacar? Ele e Fred têm características diferentes.

Se o Evanilson ficasse, a minha tentativa seria de mantê-lo com Fred. Ele partindo da esquerda para dentro, ou com alguma variação de sistema. O Fred iria entrar na equipe. Tem que ficar claro que são características diferentes. Fred é definidor, dá volume, imposição, jogo de pivô para manter a posse, ganha a primeira bola. Aí preciso buscar profundidade com outros jogadores. Evanilson tinha velocidade, profundidade. E você precisa buscar mecanismos para potencializar o Fred.

Por que retornou ao trio de meias com Nenê pelo lado?

A variação existe e foi treinada desde a formação do time. No entanto, pode ser com dois meio-campistas e dois homens de lado; com três meias; com de velocidade pelo lado ou com o Nenê flutuando. Vou usar variações sempre que achar que preciso. Contra o Goiás não estávamos tendo agressividade (Yago começou pela esquerda e Nenê por trás de Fred pelo meio) e fiz a troca após o gol (Yago foi para o meio e Nenê para a ponta). Contra o Atlético-MG, tivemos outra formação. Sempre vou querer agressividade ofensiva e defensiva, com equilíbrio. E Nenê só fica na ponta num momento posicional (no início da fase ofensiva). Mas depois tem toda a liberdade para ser meia, ele é meia. Quando ele jogava centralizado, os movimentos dele eram para o lado, porque o meio está congestionado. É difícil o passe entre as linhas ali.

Nenê e Fred te obrigam a fazer muitas compensações para o time não se desequilibrar?

Não é que obrigam compensações. São outras características. Não dá para ficar pensando só no time sem a bola, tem que pensar no momento em que recupera a bola. Se eu fizer os dois ficarem dando pique, mordendo zagueiro, pressionando, quando recuperar a bola vou fazer o quê? Eu perco o melhor desses caras. O sistema tem que potencializá-los. Num time organizado, um jogador de qualidade faz muito mais diferença.

Muito se fala dos recuos…

Ninguém pede para baixar o bloco. Se vai lá pra trás é porque o adversário te empurrou ou porque perdemos agressividade de marcação. Não é porque quer, é porque não está conseguindo.

O estilo do Ganso não se encaixa no que você precisa?

O Ganso é um grande jogador e eu gosto de grandes jogadores. Mas Nenê e ele têm dado uma boa resposta naquela função. Eu estou aberto a usar os dois, o campo é o senhor da razão. Mas tenho usado só um com esta característica de armação. E o Nenê tem conseguido esta continuidade e não tenho conseguido dar muitas oportunidades ao Ganso.

O Muriel viveu um momento de instabilidade e você o bancou. Por que correu risco?

Porque eu confio no jogador. Tenho como princípio que, quando o jogador atravessa um momento difícil, vou lá conversar, passar confiança. Seja goleiro ou de linha. Não dá para ficar trocando a cada jogo, mas não pode virar teimosia. Eu só procuro ser justo para não tomar uma decisão com um e outra com um jogador diferente.

Como sua concepção de futebol se moldou?

Eu fui atleta. E, como auxiliar, trabalhei com 14 ou 15 treinadores, com diversas ideias. Foi uma escola, essa mescla me fez ser eclético na minha busca por formação de equipe e adaptação. Via formas diferentes e pensei: ‘Vou ser um cara eclético, aberto’. O profissional fechado numa só situação pode encontrar barreira. Quando chego, tento potencializar aquilo que é o grupo.

Em 2009 você vivenciou o acidente de ônibus do Brasil de Pelotas. O que aquele episódio deixou em você?

Quando viajo à noite de avião eu tento ir antes na cabine do piloto perguntar se vai ter turbulência ou não, se tem como desviar. Logo no início, eu não conseguia viajar de ônibus à noite. Depois eu passei a conseguir sentando ao lado do motorista. Principalmente em viagens à noite, porque que traz uma situação pessoal bem difícil. E outra coisa: a gente tem que pensar no futuro, mas preciso viver o momento. Entregar o máximo das minhas emoções, viver o hoje. E viver intensamente. Porque foi em segundos que caí no barranco e tudo quase apagou.

Você auxiliou o Rogério Micale no Rio-2016, mas não ganhou medalha. Fez uma réplica?

A CBF mandou plaquinha de homenagem. Mas a medalha olímpica é tão bonita e simbólica que toda a comissão técnica fez uma réplica.



Por Explosão Tricolor

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