Por uma base com força mental e boas negociações




Foto: Fluminense / Divulgação



Por uma base com força mental e boas negociações

E novamente a semana começa com o assunto Pedro. Na última coluna já tratei sobre as possíveis consequências de eventual aliciamento por parte do Flamengo e acredito que o assunto já deu. Mário está mandando bem em cobrar o valor da multa para vender o atacante ao Rubro-Negro. Se fosse na época da Flusócio, o garoto já não estaria mais nas Laranjeiras. Ainda bem que passou!
Pegando carona nas negociações envolvendo Pedro, cabe trazer alguns questionamentos antigos sobre a base do Fluminense e o retorno que ela pode trazer ao clube. Aproveitando alguns exemplos mundo afora, podemos discutir qual o melhor modelo de base para Xerém. Aqui vamos nos limitar a duas realidades, que são as vivenciadas por Barcelona e Porto.
Sem dúvida nenhuma que uma das principais aspirações tricolores quando o assunto é jogador de base é o próprio Barça. Inclusive, por diversas vezes a famosa La Masia já foi instrumento de comparação por parte da nossa diretoria. No entanto, o pensamento do clube espanhol está muito longe do método tricolor de trabalhar as nossas promessas.
Mesmo não sendo tão usada nos últimos tempos – desde que o técnico Tito Villanova deixou o clube os atletas não são aproveitados com constância no elenco titular – a base do clube catalão acumula títulos e mantém um espírito de vencedor em campo. Basta lembrar que o Barcelona foi campeão da Youth Legue, que equivale à Champions League para jogadores até 19 anos, nas temporadas 2013/2014 e 2017/2018, chegando às semifinais em outras duas oportunidades – 2016/2017 e 2018/2019.
Sim, eu sei que muitos dirão que é injusto comparar o Fluminense a um dos clubes mais poderosos do mundo, mas fato é que a comparação já foi feita pelos próprios dirigentes e por isso merece destaque aqui. Porém, a base do Barcelona tem algo que realmente não cabe na realidade tricolor: ela forma jogadores para o próprio time, e não para vender, fazendo isso apenas quando o atleta não é aproveitado no elenco principal.
E aqui já cabe tratar da base do Porto, de Portugal. Último campeão da Youth League, o time que leva o nome do mais conhecido vinho português tem uma característica que também vemos no Fluminense, que é a de fabricar craques para vender. 
Assim como o Barcelona, o Porto também mantém uma periodização tática fundada no planejamento e na execução de treinamentos próprios para os atletas da base. Ou seja, existem métodos e formas devidamente planejadas de envolver os jogadores e até chegar ao profissional.
É o que diz Guillermo Gonçalves, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás e que realizou um período de estágio no clube português, ao relatar que ficou impressionado com a existência de “departamentos integrados, metodologias inovadoras e profissionais altamente qualificados para a formação do homem e do atleta” (artigo escrito para o jornal goiano Diário da Manhã). 
Além da base, outra importante forma de lucrar usada pelo clube português são as negociações bem sucedidas que realiza. Apenas com Eder Militão, campeão da Copa América pela seleção brasileira, o Porto lucrou 43 milhões de euros (cerca de R$ 200 milhões) em apenas um ano, já que o adquiriu do São Paulo em julho de 2018 por oito milhões de euros e o vendeu ao Real Madrid nesta temporada por 50 milhões.   
Fica muito claro que a intenção do clube português, além de gerir bem a formação do atleta, é vendê-lo quando já está no time profissional. Raras são as vendas de jogadores que ainda estão na categoria de base, o que, além de aumentar o lucro, ainda garante o aproveitamento temporário do jogador para as expectativas de títulos do time.
Acredito que o Fluminense pode até se espalhar no Barcelona na forma de organizar taticamente as suas equipes de base, mas a realidade tende a se assemelhar mais à vivenciada pelo clube português. Logo, se existem dois ajustes urgentes a serem realizados em Xerém são os de estruturar psicologicamente a molecada a pensar como vitoriosos e buscar, sempre que possível, vender os grandes valores somente após o seu aproveitamento no time profissional. Além de aumentar o lucro ainda aproveita o desempenho esportivo do atleta nas grandes competições.
Na verdade, o ideal seria que os jogadores ficassem no clube até o fim da carreira, sem a necessidade de vendê-los. Mas o sonho europeu e as combalidas finanças do clube assim não permitem. Contudo, se permanecerem no clube até serem usados no time de cima já será garantia de aumento do valor de venda e de alegrias para a torcida. Imagina por quanto João Pedro seria vendido hoje se ainda estivesse vinculado ao Fluminense? Certamente perdemos dinheiro nesta negociação.
Voltando ao caso Pedro, fica a dica para o moleque: não jogue fora o seu futuro forçando a saída do Fluminense. Por mais que o valor salarial prometido pelo Flamengo seja realmente um diferencial, cumpra seu contrato e aguarde as negociações, já que você só tem a perder com comportamentos pouco profissionais orientados por seus empresários. Continue trabalhando duro e será vencedor. 
Cabeça de vencedor e atleta no profissional são as duas exigências iniciais para que Xerém seja motivo ainda maior de orgulho tricolor. Exemplos não faltam e uma metodologia própria e dedicação da diretoria podem ser decisivos neste sentido 
No mais, ser Fluminense acima de tudo!

Evandro Ventura

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