Precisamos falar sobre Fernando Diniz




FOTO: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.



Precisamos falar sobre Fernando Diniz

Foi épico! Com 30 minutos toda a torcida tricolor queria a cabeça de Fernando Diniz. Ao final do jogo contra o Grêmio, já tinha enquete querendo saber se ele poderia ser considerado o melhor técnico do país. E o assunto de hoje não poderia ser outro: o próprio treinador tricolor.
E para comprovar que esta relação de amor e ódio atingiu Fernando Diniz no jogo de domingo, basta conferir as redes sociais. Apenas para citar um exemplo, a personagem “Dona Lúcia”, assumidamente torcedora do Fluminense, fez a seguinte pergunta quando o jogo estava 3 x 0 pro Grêmio: “Fernando Diniz cai no intervalo?”. Ao final da partida saiu com um grito de “MEU DEUS DO CÉU” e ainda pediu perdão ao treinador. Assim como ela, diversos outros torcedores xingaram e elogiaram o nosso treinador.
Todavia, noves fora o lado torcedor, uma análise fria do que aconteceu domingo ajudará a compreender como o Fluminense conseguiu essa virada épica, além de nos preparar para o que está por vir.
Em primeiro lugar, os números comprovam o que todo mundo viu: houve muito equilíbrio no confronto, excetuando os primeiros 21 minutos de jogo. Para citar um exemplo, o site de estatísticas Footstats.net apontou que o Grêmio deu oito assistências para que seus atacantes pudessem finalizar em gol, enquanto o Fluminense deu nove. Foram 476 passes certos dos gaúchos contra 436 dos cariocas.
Porém, o que chama mais atenção é a posse de bola. No cômputo total, foram 52,60% para os gremistas e 47,40% para o Tricolor das Laranjeiras. Todavia, por incrível que pareça, até os 21 minutos de jogo, quando o time deles fez 3 x 0, o Fluminense tinha maior posse de bola, com picos que chegaram a 65,71%.
Ainda se considerarmos o momento em que o Fluminense chegou aos seus gols, vamos notar que nos dois primeiros, aos 38 e aos 40 do primeiro tempo, o time também tinha maior posse de bola, em uma relação crescente após o baque natural daquilo que se desenhava como uma goleada gaúcha.
No segundo tempo, a nossa equipe ainda continuou mais tempo com a bola nos pés até os momentos anteriores ao terceiro gol. Após, o Grêmio praticamente liderou esta estatística, chegando a ter 72,17% de posse de bola logo após o quarto gol tricolor.
Ainda no site Footstats.net, o mapa de calor mostra que o Grêmio manteve o jogo mais no meio, enquanto o Fluminense variou as jogadas pelos lados do campo, com destaque para o lado esquerdo por onde mais caiu o colombiano Yony González, eleito o melhor jogador da partida.
Isso demonstra que a afirmação de que Fernando Diniz mudou o seu estilo de jogo no segundo tempo só tem razão de ser quando Pedro entrou no lugar de Guilherme, deixando o time mais incisivo e menos burocrático. Diminuiu a posse de bola, mas foi fundamental para marcar os dois últimos gols da equipe. Uma modificação previsível diante da possibilidade de fazer história que o momento se mostrava.
Onde Fernando Diniz realmente deu o braço a torcer foi na alteração que fez logo no início do segundo tempo, tirando Aírton e colocando Danielzinho. O esquema com três volantes, mesmo liberando um pouco mais o Allan, já se mostrou ineficaz e não contribui em nada para a evolução da equipe. Com a mudança o time ficou mais leve e teve muito mais chances claras de gol que o Grêmio, parando nas boas defesas de Júlio César – que curiosamente entregou o segundo gol tricolor.
Tais constatações deixam claro que Fernando Diniz tem que mudar algumas atitudes e concepções de início de partida, em especial a insistência em manter três volantes na equipe. Se o objetivo é sair com a bola dominada, não dá pra escalar de cara Aírton e Bruno Silva, até porque eles já entregaram vários gols ao longo desta temporada. Não possuem características próprias de quem pensa o jogo e a manutenção de ambos juntos no time tem prejudicado o estilo de jogo que o treinador quer implantar.
Outro ponto que Fernando Diniz tem que entender é que Guilherme tem que recuperar a forma física e o seu ritmo. Não dá pra ser titular contra o Grêmio, em plena Arena, após sequer ser relacionado no Bahia desde o mês de março, quando se envolveu em uma polêmica com a torcida de lá – fez gestos obscenos para os torcedores que o vaiavam.
De todo modo, o treinador tricolor merece a confiança da torcida. Primeiro porque ele saiu do trivial e mudou o jeito do Fluminense jogar em pouco tempo de clube. Depois, porque ele não tem à sua disposição um elenco de primeira linha, com jogadores variados e que mantêm a força mesmo saindo um e entrando outro. Na verdade, ele faz milagre ao tentar manter o time em alto nível.
Além disso, ele é honesto com a sua forma de ver o futebol e sincero nas entrevistas que dá após as partidas. Concordemos com ele ou não, nunca o vi dizer algo apenas para agradar o torcedor. Pelo contrário, no domingo ele questionou a cobrança existente no futebol brasileiro pelo resultado, esquecendo a concepção de partida. É claro que não concordo, já que time grande tem que entrar em campo pra ganhar, mas reconheço que o discurso não foi oportunista e ele falou realmente o que sentia.
Enfim, já que a diretoria não lhe dá um elenco de qualidade, Fernando Diniz tem que trabalhar com o que é possível, e neste sentido tem feito um trabalho que merece muito mais elogios que críticas.
Que ele permaneça no cargo e que o Fluminense possa fazer uma campanha digna neste Brasileirão!
Ser Fluminense acima de tudo!

Evandro Ventura

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