Saudade




Foto: Mailson Santana/ FFC

Buenas, tricolada! É curioso o sentimento dos torcedores de uma forma geral. A grande maioria guarda pouquíssimos elogios aos Torneios Estaduais. Palavras carinhosas ao Carioquinha, então, putz! Impossível!

Eu sou um dos defensores do extermínio imediato dos tais torneios regionais. Eles comprometem as pré-temporadas dos gigantes, “estouram” as musculaturas dos jogadores, têm atrativos duvidosos, servem para derrubar treinadores – e fazer com que as torcidas odeiem determinados atletas, e apresentam a cada ano mais e mais campos de várzea, impraticáveis pro desporto.

Inclusive, as equipes pequenas do Rio de Janeiro se tornaram meros sacos de pancada. Uma pena, já que Olaria, São Cristóvão, Bonsucesso e outros revelaram grandes nomes para o esporte mais popular do planeta, como, por exemplo, Romário, Ronaldo Fenômeno e Nelinho, dentre uma infinidade de craques. Sim, outras épocas, mas…

Pois é, saudades dos tempos em que o Campeonato Carioca era “ão”, e não “inha”! Mais valorizado até mesmo do que Brasileirões, Libertas, Sulas, Copas do Brasil e quaisquer demais torneios que inventassem os mandatários geniais que organizam o nosso calendário.

Mas o mundo evoluiu e, com ele, o futebol também transformou-se num grande business. A globalização encurtou espaços, e aproximou as pessoas de informações e conhecimentos. Bom! Muito bom! Isto é sinal das eras! Mais do que necessário, a propósito!

Saudades igualmente de ver o Fluzão sapecar cinco piabas num adversário. E aí, galera, não importa se a goleada aconteceu no Carioca, contra o Rosita Sofia, no confronto dos garçons tricolores diante dos cozinheiros molambos, no Aterro do Flamengo, ou na seletiva de cuspe à distância, no bairro de Inhaúma, ante os poderosos Cuspidores Anônimos! Cinco gols são cinco gols! E nós metemos 5×1 no Bangu, em pleno Estádio Proletário, neste último domingo ensolarado – de um verão atípico por causa das temperaturas amenas na Cidade Maravilhosa.

A bem da verdade, puxei pela memória e não consegui lembrar da última partida em que o Fluminense sacudiu cinco vezes as redes inimigas. Não mesmo!

OK! OK! Sei bastante bem que o Carioquinha não é mais parâmetro para euforias, mas o trabalho neste começo de 2020 vem me agradando em cheio. Pela chegada do novo técnico, pelas contratações, pelo elenco mais encorpado – com peças de reposição similares aos eventuais titulares, pela quitação dos salários e compromissos com jogadores, fornecedores etc… Em suma, a temporada desenha-se mais aprazível aos tricolores de coração. Tomara que eu não engula a seco – e com espinhos – o meu próprio otimismo.

Flu e Bangu fizeram um jogo interessante. Não pelo excesso de qualidade técnica, e sim pelas propostas de seus treinadores e pela entrega de cada equipe em campo. Cada uma a sua maneira.

Os Guerreiros Tricolores sobraram dentro das quatro linhas, e, aí sim, a nossa melhor categoria prevaleceu diante do melhor desempenho físico dos malandros.

Somos melhores do que o esforçado Bangu, mesmo com inúmeros desfalques, pouco tempo de trabalho, desentrosamento e tudo o mais. Conforme fiz referência na coluna anterior, os nanicos neste Estadual não terão chances. Não se trata de um vaticínio, mas de uma impressão baseada em observações – e alguma rodagem no meio! Talvez, um ou outro belisque algo mais por conta da inofensividade de Bota e Vasco. Entretanto, na hora H os grandes se superam e colocam os clubes de menor investimento nos seus devidos lugares.

Fizemos um a zero, com o Luccas Claro, de cabeça, após cruzamento perfeito do Miguelzinho. Aliás, este mesmo menino de ouro, a dois minutos de peleja, deixou o esforçado – mas limitado – Lucas Barcelos na cara do gol, com uma metida de bola improvável. O placar manteve-se em branco, na ocasião!

A equipe da Zona Oeste achou o gol de empate, depois de uma falha bisonha do Digão. Pelota nas costas, depois de um lançamento do meio da rua, e o cara cometeu uma penalidade desnecessária e infantil… Era para ter sido expulso! Marcelo de Lima Henrique, o juizão, amarelou!

Um a um injusto, naquela altura. Havia sido a primeira estocada do Bangu!

Por sorte, num bom cruzamento do Egídio, da esquerda, o mesmo Luccas Claro desempatou a nosso favor, também de cabeça. O impossível, até então, fazia-se regra: dois a um pro Flu, com dois tentos de um zagueirão que teve a sua contratação questionada em 2019. Isto é o futebol!

No segundo período, com os banguenses melhores e mais efetivos, o FFC deslanchou. Bola na trave, numa falta batida pelo novo xodó tricolor, Miguel, chance desperdiçada pelo Mateus Alessandro, depois de um bolão do Henrique, e mais três pombos no saco inimigo. Gols de Yago, com muita categoria, Felipe Cardoso (quem diria), num lance de atacante que não desiste jamais, e Gabriel Capixaba, mais um menino da base que acabara de entrar e mal tocara na redonda.

Um luxo esse tal de futebol, né não? O Sobrenatural de Almeida azucrinou a vida do Felipe Cardoso nos dois primeiros jogos. Ele foi eleito, por mim, inclusive, a pior aquisição do Mário Bittencourt até então. Relatos garantem que os nossos torcedores, lá no Guilherme da Silveira, assim que o Felipe substituiu o inútil Lucas Barcelos, começaram a bradar: “Odair, tire o camisa 19…”, em tom de deboche. Não preciso ratificar agora o número do Felipe Cardoso, pois!

Mas o Gravatinha concedeu a redenção ao camisa 19… Ao Felipe Cardoso! No segundo toque na bola – acabara de entrar no jogo, depois de uma cagada da zaga alvirrubra, o centroavantão recebeu livre e serviu o Yago, que cumprimentou a rede bandida. O cara ainda consignou a sua marca, quando brigou pela pelota num lançamento equivocado do Miguelzinho e antecipou-se ao atordoado zagueiro do Bangu, empurrando-a para o fundo do barbante.

No meu conceito, pro meu gosto, os melhores do Flu, nesta ordem foram Miguel – só porque é diferente, quase um mini-craque (sem exageros); Dodi – o moleque roubou bola pra cacete, acertou quase todos os passes e foi importante na transição; e Mateus Alessandro – foi a nossa válvula de escape durante toda a partida. O prêmio Hors Concours vai pro Luccas Claro. Porra, um zagueiro meter dois gols num único duelo nos concede conteúdo pra reverenciá-lo por muito tempo, independentemente do adversário. E ele foi bem defensivamente, da mesma forma.

Muriel não teve trabalho. E foi bem na bola que definiu o tento do oponente, no pênalti batido pelo volante do Bangu.

Julião… Oras, o Julião tem oportunidades há cerca de seis anos e nunca as aproveita. Querendo ou não, gostando ou não, o Gilberto faz falta – mesmo com a suas dificuldades físicas.

Digão, sem argumentos! Falha feia, mas vamos relevar: primeiro jogo, falta de ritmo e a sua besteira não comprometeu o resultado. Mas que fez lambança, ah, isso ele fez!

Egídio realiza os melhores cruzamentos do futebol tupiniquim. Ele é forte neste fundamento. Vai ser útil na temporada. Não creio que vá melhorar na marcação, aos 33 anos – é o seu ponto cego, portanto, o Odair tem que cuidar muito bem da sua cobertura, nos treinamentos.

Henrique e Yago tiveram atuações discretas, mas darão caldo.  Estreias, aclimatações, nervosismos, enfim… E ainda assim, o volante acertou passes e metidas de boal e o meia balançou o filó dos caras! Foram boas contratações.

Confesso que gostaria de ver o Matheus Pato em campo mais vezes – e por mais tempo. Acho que ele renderia mais como falso camisa 9, na vaga do Lucas Barcelos. O Capixaba não mostrou muita coisa, porque não teve minutagem no gramado – muito embora carimbar a rede inimiga com um minuto em campo o credencie demais. Sorte? Pode ser, mas ela ajuda os competentes!

Pois é… Que venham os Molambos, na quarta-feira próxima! Quero nem saber se eles vêm de subs ou com os titulares. É Fla-Flu!

Então é isso, meu povo! Três jogos, três vitórias e nove pontos. Alvíssaras! E a tal da saudade invadindo os nossos corações. Saudades de uma sequência de três vitórias, saudades de uma convincente goleada, saudades de um Fluminense Football Club que nos represente, enfim… É cedo? Pra cacete! Mas se não tivermos esperanças e confiança no nosso objeto de paixão, quem as terá? É o nosso papel: ser torcedor convicto acima de tudo. Se der errado a gente senta a pua – sem nos esquecermos da humildade e do aplauso, caso dê certo!

Saudações eternamente tricolores!

Ricardo Timon

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