Um tri para não deixar dúvidas




Tricampeonato do Fluminense em 1985 (Foto; Divulgação)

Buenas, tricolada! Pois é, hoje encerra-se uma epopeia literária que eu mesmo decidi instituir amigável e emocionadamente aos amigos do Explosão Tricolor.

Creio que vocês recordam bem, há duas semanas me propus a descrever sentimentos, lembranças, e singulares e admiráveis abalos sobre o Tri Campeonato Carioca de 1983-84-85. Revi, por gravação, estes três inesquecíveis combates envolto em atenção e lágrimas.

Época dourada do futebol do Rio de Janeiro, quando o Fluzão era respeitado e temido no Planeta Bola! Até uma inaudita final de Brasileirão entre duas equipes do mesmo Estado aconteceu pela primeiríssima vez: o Fluminense Football Club foi Bi Campeão Nacional na decisão de 1984, diante do Vasco! Tempos idos!

Depois de paparmos duas vezes consecutivas o Campeonato Carioca ante o eterno rival Flamengo, em 1983 e 1984, com o eterno Assis desfilando a sua fama de carrasco, chegou a vez de o excelente time do Bangu testar a nossa força. Um elenco de primeira linha montado pelo contraventor Castor de Andrade, que já almejava – e até beliscava – algumas conquistas importantes, chegou forte para mais um desafio. Apenas como referência, para quem não sabe – ou lembra, o time da Zona Oeste do Rio alcançou o status de favorito na final do Campeonato Brasileiro de 1985, quando foi derrotado nos pênaltis pelo Coritiba, em pleno Maraca. E realizou melhores campanhas, no geral, do que todos os rivais, além de brigar e vencer turnos, nos Campeonatos Estaduais da década de 1980!

Hoje é dia de Flu e Bangu (1985)

O Tricolor Guerreiro foi escalado para o duelo pelo treinador Nelsinho Rosa, que já havia sido Campeão Carioca no Flu em 1980, também como comandante, com Paulo Vítor; Betinho (Aldo estava no estaleiro há meses e Leomir, que jogou o torneio inteiro improvisado, também desfalcou o onze titular por suspensão), Vica (Duílio fora negociado), Ricardo Gomes e Renato (Branco contundido); Jandir, Deley, Renê (Assis também não trajava o manto tricolor havia tempos, por lesão) e Romerito; Washington e Tato. A gente tentava o nosso terceiro Tri Campeonato Estadual, o primeiro da era do estádio Mário Filho, e a primazia de maior vencedor no retrospecto de todo o futebol da Cidade Maravilhosa.

O Bangu, que jogava completo, pelo empate e buscava apenas o seu terceiro título carioca (vencera em 1933 e 1966), atuou com Gilmar; Perivaldo, Jair, Oliveira e Baby; Israel, Arthurzinho e Mário; Marinho, Fernando Macaé e Ado. O técnico era o saudoso e fanfarrão Moisés, que se destacara no Vasco e também vestira a camisa do próprio Flu, quando jogador.

A Rede Globo transmitiu a disputa, que teve a narração de Galvão Bueno, e as reportagens de campo de Mário Jorge Guimarães e Luís Fernando Lima. A arbitragem ficou por conta, mais uma vez, do controverso e polêmico José Roberto Wright, auxiliado por Wílson Carlos dos Santos e Pedro Carlos Bregalda.

Oitenta e oito mil, cento e setenta e dois espectadores estiveram no Maracanã e acompanharam uma final encardida, com duas equipes que queriam a conquista. Jogo bom, pegado, de ataques e contra-ataques de lado a lado, e algumas evidências.

No primeiro tempo, antes dos 30 segundos de jogo, o Paulo Vítor já foi obrigado a trabalhar. Numa batida de falta pela esquerda, o ponta-esquerda Ado jogou a bola pra área e o nosso paredão dividiu o lance, no chão, com o bom Fernando Macaé e o ótimo Marinho, segurando-a firme.

Quase aos 5 minutos, Mário descolou lançamento na direita para Fernando Macaé. Ricardo só parou o centroavante com falta. A pelota foi alçada na área pelo Perivaldo, Paulo Vítor saiu em falso e Marinho testou para o gol vazio. Falha do goleirão, no meu entendimento, ainda que a zaga estivesse mal colocada. Um a zero pros caras e a tensão começava tomar os nossos corações no maior do mundo. Lembro-me bem que eu e os mesmos parceiros dos anos anteriores nos entreolhamos e dissemos, por osmose, sem emitir uma única palavra: lascou-se (não com esta fleuma)!

A partir daí, o Bangu postou-se atrás apostando nos contra-ataques, e o Flu martelava insistentemente, rodando a bola de um lado a outro do campo e tentando cruzamentos sobre a cozinha inimiga – os becões cortavam todas! Tínhamos o domínio de meio-campo, mas não construíamos as jogadas com inteligência e precisão. Parecia que o nervosismo havia tomado conta dos nossos guerreiros. Ademais, os rivais paravam os nascedouros das nossas tentativas e arrancadas com faltas constantes. Mas isso não se trata de desculpa esfarrapada, porque eles marcaram pra caramba, de fato!

Por volta dos 15 minutos, Deley tentou de fora da área e levou algum perigo ao gol de Gilmar; e, pouco depois, Washington cabeceou um cruzamento de Renê por cima da meta adversária. Mas num contra-ataque rápido, Arthurzinho achou Mário livre no meio, que, de prima, passou a Fernando Macaé. O camisa 9 banguense meteu um bolão pra Marinho na direita, sozinho… o craque alvirrubro levantou a redonda na cabeça de Ado, que, desmarcado, desperdiçou chance incrível! Temores e tremores rondavam as arquibancadas de três cores – a benção de João de Deus seria mais do que necessária!

Na jogada seguinte, o Washington ganhou de cabeça uma bola levantada na área, da direita, Romero se antecipou à zaga e tocou de biquinho para salvadora defesa de Gilmar. Peleja complicada, mas não estávamos mortos!

Jogo lá e cá, com o Bangu contra-atacando com perigo e o Fluminense tentando furar o bloqueio inexpugnável dos malandros. Até que nas cercanias dos 30 minutos, Paulinho entrou na vaga de Tato. O camisa 11 tomou uma pancada no comecinho da peleja e atuou até ali no sacrifício – realmente ele não era o mesmo ponteiro efetivo no ataque e eficaz na parte tática. Mas, quem diria, o destino conspirava a nosso favor, né não?

A segunda melhor jogada do ataque tricolor aconteceu aos 35 minutos. Paulinho foi ao fundo pela esquerda e cruzou de perna direita. Washington furou a cabeçada e a pelota sobrou lá na ponta direita para a disputa de Renê com Gilmar, que saíra desesperado de sua meta. O nosso volante-meia levantou a redonda de três dedos na área e Washington, sozinho, testou pra fora, longe da baliza abandonada pelo arqueiro inimigo.

O Flu voltou pro segundo tempo ainda com mais vontade. Logo no começo, aquele tipo de estocada que a nossa defesa viveu e salvou antes dos 30 segundos de confronto, desta feita foi inversa: a defesa banguense é que provou do veneno. Romero invadiu a área inimiga pela esquerda, cruzou rasteiro e o Gilmar teve que dividir a jogada, no chão, com Renê e Washington. As nossas esperanças se renovavam!

Uma jogadaça de Don Romero pela ponta-direita, quando ele driblou dois oponentes em velocidade e cruzou na área do Bangu, quase nos deu o tento de empate. A bola passou por Washington, sobrou para o Paulinho, na esquerda, que bateu cruzado para a meta. Renê emendou de primeira, ela bateu no peito do Jair e perdeu-se pelo lado (ou fundo)! Uuuuuuuhhhhh! Os tricolores pediram pênalti, mas o Wright acertou: não houve mão!

A essa altura, o Fluminense era só pressão! E o Bangu, só chutão – mesmo acuado, ainda assustava a torcida verde, branca e grená com os seus contra-ataques rápidos.

Jandir, desde o começo do confronto, arrancava em velocidade com a bola dominada lá da nossa defesa e levava desespero à zaga rival. Que saudades de um volante viril, correto e imprescindível na marcação, além de espetacular no apoio, como ele!

A nossa redenção começou a ser desenhada aos 20 minutos da etapa derradeira. Deley bateu uma falta na intermediária alvirrubra, a redonda foi afastada por sua boa zaga, e sobrou para Paulinho, quase no bico da grande área. O ponta-esquerda fez bela assistência – com a perna cega -, ao gringo, cracaço da camisa 7, que, mesmo desequilibrado, não perdoou: gooooooooooooooooooooooooooooooool! Romerito! Estava empatado o duelo! Ufa!

Na sequência, depois de um balão genial de Romero no meio e um lançamento primoroso a Paulinho na esquerda, a bola alçada pelo pontinha endiabrado sobrou, na entrada da área, para o tirambaço de Deley rente à trave direita de Gilmar! Putz! Era só êxtase no Maraca! E diante do sofá também, porque eu já roía unhas! Como se a final fosse ao vivo! E a galera estava enlouquecida nas arquibancadas e gerais! Que saudades! “Nensêêêê, Nenseêêêê…”!

Outro lance de que não recordava: Deley enfiou uma bolaça pra Betinho, na corrida, que invadiu a área inimiga pela direita e, meio sem ângulo, disparou um petardo no travessão de Gilmar. Uuuuuuuuhhhhhh! De novo! Que jogada!

Ainda assim, a finalíssima mantinha-se pegada e difícil, com lances de perigo de ambos os lados, mas os rebotes ofensivos eram sempre nossos. E a gente imprensava o Bangu em seu próprio campo.

Por volta dos 30 minutos, com Betinho ainda fora do gramado por conta da traulitada que levara no momento de seu tiro na trave, eis que surge o alívio (efêmero): Jandir achou Renato na esquerda, que meteu ótima bola a Paulinho. O camisa 16 arrumou um salseiro em cima da marcação adversária e ganhou o escanteio – neste instante, Betinho retornava às quatro linhas. Córner cobrado, a zaga banguense rebateu e a pelota sobrou a Jandir. O camisa 5 arrancou em direção à área, levou três na marcação e a alçou na altura da meia-lua. Baby deu um bicão pro alto e ela ficou em disputa… Nisto, quando Washington se preparava para matá-la, o becão Jair o empurrou infantilmente, na risca da grande área. Faaaltaaaaaaaaa!

A torcida pediu Jandir (eu, inclusive). E ele estava colocado para a cobrança, ao lado de Deley e Paulinho. Vocês já sabem quem bateu magistralmente a tal falta, não é? Gooooooooooooooooooooooooooooooooool, de Paulinho!!!!! Fluzão 2×1 e o caneco encaminhava-se pro Laranjal! A benção, João de Deus! Sempre! Desde 1980!

O Bangu viria pra dentro, e não deu trave! Entrou Cláudio Adão no lugar do Fernando Macaé, mas o nervosismo trocara de lado: os malandros sentiram o nosso segundo gol.

Entretanto, um lance capital poderia ter mudado o rumo da história, e o Bangu conquistado o seu tão sonhado título. Lá de sua intermediária, pela direita, aos 46 minutos e 10 segundos do segundo período da finalíssima, já nos acréscimos, o imprevisível Marinho esticou uma bola improvável para a corrida de Cláudio Adão. Ricardo foi encoberto e Vica assistiu ao camisa 16 invadir a nossa área, de frente com Paulo Vítor. O zagueiro da camisa 3 não se fez de rogado: agarrou claramente o atacante oponente pela camisa. Pênalti! Sim! Se José Roberto Wright não tivesse terminado a peleja quando a pelota ainda viajava pelo alto – segundo ele próprio.

Muita confusão, agressões etc, mas fim de jogo e o título era nosso! Fluminense Tri campeão, caceta! E f#$%@&*-se o suposto roubo! Cansamos de ser prejudicados no decorrer dos anos!

Os grandes destaques da final, a meu ver, pelo Flu, foram Ricardo – que beque!; Jandir – o craque do jogo, pra mim; seguido beeeeem de perto por Deley – um maestro; com Romerito no vácuo – no segundo tempo, quando consignou o seu tento, e foi incansável e determinante; e o Paulinho. Porra, o camarada foi o autor do gol do título e infernizou o Perivaldo e afins!

Paulo Vítor cometeu apenas a falha do gol dos caras, e no restante do duelo teve performance tranquila. Vica fez o feijão com arroz (a não ser na última jogada da partida), mas o Duílio era mais zagueiro, na minha modesta opinião. Washington, apesar da briga constante, não esteve na sua plenitude, assim como Renê. Betinho sentiu um pouco a responsabilidade no início, mas não comprometeu e se firmou no decorrer da guerra. E o Renato, com a ingrata missão de marcar o jogador diferenciado dos adversários, fez bem o seu papel.

Pelo lado banguense, o tal do Oliveira, um zagueirão que eu sequer me lembrava da existência, e o Marinho. Um verdadeiro craque! Macaé e principalmente Ado também jogaram bastante. Ah, Arthur e Mário deram o toque de qualidade da meiúca alvirrubra, e Israel não desgrudou do Romerito.

Enfim, três anos subsequentes de predomínio no Rio de Janeiro. Época de ouro do enorme, gigante e imortal Fluminense Football Club. Por mais que inúmeras administrações calamitosas, uma atrás da outra, tentem apagar as linhas irretocáveis e repletas de pompa, opulência e ineditismo do glossário tricolor, a sua histórica trajetória jamais será maculada!

Mantenhamo-nos firmes, fortes e intocados no combate ao covid-19. Vamos vencer mais essa batalha!

Até a próxima.

Saudações eternamente tricolores!

Ricardo Timon

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