(por Vinicius Toledo)
Há amores que nascem para durar uma vida. Por outro lado, outros atravessam gerações, vencem o tempo e se transformam em eternidade. Dessa forma, o Fluminense pertence a essa segunda espécie.
Certamente, há algo de inexplicável em ser Fluminense. Afinal, não é apenas o coração que acelera quando a bola começa a rolar. Tampouco é somente a garganta que se entrega ao primeiro grito vindo das arquibancadas. Além disso, não se trata da alegria de uma vitória ou da tristeza de uma derrota. Em suma, é algo mais profundo, antigo e quase ancestral.
Com isso, é como se, em algum lugar da nossa alma, existisse uma bandeira grená, branca e verde que jamais deixou de tremular. E, quando chega a Libertadores, essa bandeira parece ganhar vida própria.
Consequentemente, o tempo desacelera e a memória desperta. Nesse sentido, os fantasmas gloriosos do passado caminhando novamente entre nós ganham força. O Maracanã deixa de ser apenas um estádio e se transforma em território sagrado. Porque, existem jogos de futebol, mas também existem encontros com a História. Atualmente, o Fluminense está novamente diante de um desses encontros.

A legião que nunca caminhou sozinha
Imagino um guerreiro solitário diante da imensidão do Rio de Janeiro. Sua armadura carrega as marcas de incontáveis batalhas. Sua espada reflete a luz do último sol. Enquanto isso, sobre os ombros, uma capa grená dança ao vento, trazendo em dourado o escudo de uma paixão centenária.
À sua frente surge o Maracanã. Logo atrás, posiciona-se uma legião. No entanto, não se trata de um exército de soldados comuns. Neste grupo, temos pais carregando filhos nos ombros, além de avôs de cabelos brancos que ainda se emocionam como crianças. Também estão presentes mães, filhas, irmãos e amigos. Assim, homens e mulheres que jamais se conheceram abraçam-se como se compartilhassem o mesmo sangue.
Existem ali rostos negros, brancos, jovens e envelhecidos pelo tempo. Do mesmo modo, vemos mãos calejadas, olhos marejados e vozes que aprenderam desde cedo a pronunciar uma palavra como se fosse uma oração: Fluminense.
Vale ressaltar que essa legião não começou a marchar ontem. Ela vem de muito longe. Primeiramente, vem das Laranjeiras, das arquibancadas de madeira e dos domingos de sol. Depois, passa pelos rádios de pilha encostados aos ouvidos, pelas transmissões interrompidas pelo nervosismo, pelas camisas herdadas e pelos ingressos guardados como relíquias. Portanto, vem dos que estão aqui e, sobretudo, dos que já partiram. Afinal, nenhum tricolor entra sozinho no Maracanã. Sempre há alguém invisível caminhando ao seu lado.
Os homens passam. A história permanece.
Em algum lugar dessa caminhada, Nelson Rodrigues observa a multidão com aquele olhar de quem compreendia que o futebol jamais coube nas quatro linhas. Provavelmente, enxergasse mais uma vez a dimensão sobrenatural de uma camisa que transforma homens comuns em personagens de epopeias.
Perto dele, Castilho protege eternamente uma baliza imaginária. Simultaneamente, Ézio, Assis e Washington reaparecem na memória afetiva de uma geração que aprendeu a acreditar no impossível. Além de tudo, tantos outros heróis atravessam o tempo, carregados não por estátuas, mas pela lembrança de quem os viu jogar e pelas histórias contadas a quem chegou depois.
Trata-se de personagens de épocas diferentes, unidos por uma mesma bandeira. Por isso, nenhum deles precisa estar fisicamente presente para participar desta batalha. Deste modo, a memória é o lugar onde os ídolos jamais envelhecem. Em outras palavras, o Fluminense é uma das formas mais bonitas que encontramos de conversar com o passado.

A América conhece nossos passos
Nossa caminhada não se limita ao Rio de Janeiro. Pelo contrário, ela atravessa montanhas, rios, fronteiras e oceanos de saudade. Anteriormente, já estivemos diante da imponência dos Andes, onde o vento parece trazer histórias de antigas civilizações. Da mesma forma, já seguimos pelas águas do Rio da Prata, levando conosco a esperança de milhares de corações que permaneceram em casa.
Também caminhamos pelas ruas de Buenos Aires, onde o futebol é religião e cada estádio guarda suas próprias lendas. Em cada uma dessas viagens, fincamos a mesma bandeira. Em cada batalha, renovamos o mesmo sentimento. Portanto, há algo profundamente belo em ver um tricolor tão distante de casa e perceber que ele nunca está verdadeiramente longe do Fluminense.
Afinal, nossa pátria afetiva não conhece fronteiras. Ela cabe em uma camisa, em um escudo ou em uma canção. E, quando milhares de vozes cantam juntas, a distância entre o Rio de Janeiro e qualquer lugar da América simplesmente desaparece.

Aos pés do Cristo, uma oração
Antes de toda grande batalha, existe um instante de silêncio. Nesse momento, imagino nosso guerreiro ajoelhado diante do Cristo Redentor. A espada repousa sobre a pedra e a cabeça está inclinada. Enquanto isso, o vento movimenta suavemente sua capa grená.
Lá embaixo, o Rio de Janeiro desperta. Contudo, não há pedidos de vingança nem promessas de superioridade, apenas gratidão. Acima de tudo, gratidão por pertencer a uma história tão grande. Agradecemos pelos pais que ensinaram seus filhos a amar o Fluminense, pelos amigos que dividiram arquibancadas e pelas lágrimas derramadas em derrotas dolorosas. Por fim, agradecemos pelas lágrimas de alegria que fizeram todo sofrimento ganhar sentido.
O guerreiro sabe que a fé não garante vitórias. Entretanto, sabe também que há forças que não se medem em estatísticas, esquemas táticos ou probabilidades. Por exemplo, a esperança é uma delas. Da mesma forma, o amor é outra. E, quando se trata do Fluminense, ambas costumam caminhar de mãos dadas.
O Coliseu chamado Maracanã
Agora, a noite se aproxima e as luzes se acendem. Consequentemente, o gigante de concreto começa a respirar. O Maracanã, testemunha de tantas glórias e tragédias, prepara-se para receber mais um capítulo de sua história.
Do outro lado estará o Palmeiras, um adversário de tradição, grandeza e conquistas. Trata-se de um rival digno da dimensão desta semifinal. Porém, não haverá caminho fácil. Nunca houve. Além disso, as grandes histórias não são escritas por quem procura atalhos, mas por aqueles que aceitam o peso de seus desafios. É por isso que a Libertadores desperta sentimentos tão intensos. Afinal, a glória não é um presente; é uma conquista.
Imagino o instante em que a multidão se levanta. Em seguida, as bandeiras começam a ondular e os sinalizadores tingem a noite. O som das arquibancadas cresce até se transformar em um único rugido. Nesse instante, o guerreiro ergue sua espada e a legião responde. Mas, sua maior arma não é o aço. Trata-se da certeza de que milhões de corações estarão pulsando no mesmo ritmo. Com isso, o Maracanã não será apenas um estádio. Ser o nosso Coliseu e a arquibancada, a voz de uma nação.

Somente o que sentimos justifica o que fazemos
Talvez alguém que não seja tricolor jamais compreenda. Por exemplo, não compreenda as viagens intermináveis, as noites sem dormir, as promessas silenciosas ou os abraços em desconhecidos. Igualmente, não entenda por que um homem adulto chora diante de uma taça ou por que uma simples camisa carrega tantas lembranças.
Contudo, não precisamos explicar. Afinal, algumas verdades não foram feitas para serem compreendidas pela razão. Pelo contrário, foram feitas para serem sentidas. E, somente o que sentimos justifica o que fazemos.
Amanhã, quando a bola rolar, não estarão em campo apenas onze jogadores vestindo grená, branco e verde. Junto deles, estarão presentes as nossas lembranças, os nossos sonhos, as nossas perdas e tudo aquilo que o tempo não conseguiu apagar. Veremos em campo os que viram Castilho, os que vibraram com Assis e os que testemunharam gerações de guerreiros. Da mesma forma, estarão lá os que choraram em 2023, quando a América finalmente se curvou diante de um sonho cultivado por tantas décadas.
Além desses, estarão também aqueles que ainda não nasceram, mas que um dia ouvirão nossas histórias. Certamente, eles descobrirão por que amamos tanto este clube. Portanto, é por eles também que seguimos caminhando.
A eternidade nos espera
Não sabemos o que acontecerá quando o árbitro apitar. Afinal, o futebol, em sua beleza mais cruel, não oferece garantias. Podemos vencer, sofrer ou conhecer novamente a alegria e a dor. No entanto, existe algo que nenhum resultado será capaz de modificar.
Nós somos o Fluminense.
Somos a memória de quem partiu e a esperança de quem chegou. Além disso, somos as Laranjeiras, o Maracanã, o Rio de Janeiro e todos os lugares onde houver um coração tricolor. Somos também a coragem de recomeçar depois de cada queda e a fé que resiste quando a razão recomenda desistir. Em suma, somos uma história que não começou conosco e que não terminará quando partirmos.
Por isso, enquanto houver uma criança vestindo pela primeira vez a camisa tricolor, enquanto houver um velho torcedor contando suas histórias e enquanto houver uma bandeira tremulando nas arquibancadas, nossa legião continuará marchando.
O guerreiro olha uma última vez para o céu. Ao longe, a taça brilha como uma estrela. Em seguida, ele aperta o punho sobre a espada, contempla o Maracanã e segue em frente. Não porque tenha certeza da vitória, mas sim porque sabe que algumas batalhas merecem ser enfrentadas com toda a alma.
E, acima de tudo, porque aprendeu, desde muito cedo, uma verdade que carregará até seu último suspiro:
A HISTÓRIA NÃO SE CONTA. SE CONQUISTA!
Que venha o Palmeiras, a batalha e o destino.
A eternidade veste grená, branco e verde. NÓS SOMOS A HISTÓRIA!
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