Ataque ao círculo vicioso




Hora de quebrar o Círculo Vicioso
Hora de quebrar o Círculo Vicioso

Amigos Tricolores,

Temos visto nos últimos dias, notícias de que o Esporte Interativo entrou firme na briga pelos direitos de transmissão do campeonato brasileiro, inicialmente com foco na TV fechada, mas com possibilidades de expansão futura para a TV aberta.

Esta proposta do Esporte Interativo está amparada pela Turner, uma gigante americana das telecomunicações, que possui em seu cardápio canais como a TBS, CNN, TNT, TCM e Cartoon Network, além de sites como a nba.com.

Segundo notícias, negociam hoje com o Esporte Interativo os seguintes clubes: Fluminense, Grêmio, Internacional, Santos, Coritiba, Atlético Paranaense e Bahia, com a possibilidade aberta ainda de outras agremiações aderirem.

E porque isto ocorre? Muito em virtude da “espanholização” forçada que a Rede Globo tenta impor ao futebol brasileiro, com o enorme distanciamento no valor das cotas de Flamengo e Corinthians em relação aos demais clubes (com a subserviência dos clubes, claro, que aceitaram este modelo).

Mas nem tudo são flores. É claro que a aceitação da proposta do Esporte Interativo trará ônus aos clubes.

De início, uma menor visibilidade e maior dificuldade na obtenção de patrocínios me parecem ser quase certos.

Mas isso, a meu ver, é um risco que vale a pena correr, e que pode representar a sobrevivência no cenário de longo prazo.

Isto porque, vejo este momento como fundamental para se quebrar o círculo vicioso imposto pela Rede Globo, e que ameaça a competitividade do nosso futebol.

E qual é este círculo vicioso?

Primeiramente, a Globo estabeleceu um parâmetro de pagamentos baseados na audiência, mas que não seguem a exata proporcionalidade de retorno.

Em função disso, a Globo dá, automaticamente, mais visibilidade a quem recebe mais, transmitindo mais jogos.

Esta maior visibilidade gera, além de cotas mais generosas, mais possibilidades de captação de patrocínios.

Em função disso, a divulgação de qualquer jogo envolvendo Flamengo e Corinthians, é muito maior do que os das outras equipes, o que acaba atraindo mais audiência (além das que estes dois clubes já teriam automaticamente, por terem as maiores torcidas).

E este aumento da audiência é/será usado pela própria Globo para justificar a distância nas cotas recebidas por estes dois clubes.

Está formado o círculo vicioso.

A Globo dá mais dinheiro, divulga mais, estimula mais a audiência a assistir os jogos destes dois clubes, e depois usa esta audiência que ela mesma estimulou para justificar o fato destes dois receberem mais dinheiro da televisão.

Os torcedores destes clubes passam a acreditar que, de fato, devem receber muito mais do que os outros, ignorando por “comodidade”, que um campeonato forte se faz com concorrentes fortes, e não com disparidade entre as esquipes.

E uma vez estabelecido este sistema, fica muito difícil de quebrá-lo.

Vejam o exemplo da última final da Copa SP de Juniores, entre Flamengo e Corinthians.

Minha mulher é daquelas que gostam de ver Globo o dia todo, e ao lado dela, assisti em sequência no último sábado o “É de casa”, “RJTV”, “Globo Esporte” e “Jornal Hoje”.

Em absolutamente todos eles, ao final dos programas, o apresentador soltou a seguinte frase: “E como um último lembrete, ressaltamos que a Globo vai transmitir, na próxima segunda, às 10 da manhã, a final da copinha entre Corinthians e Flamengo.”

Amigos, até o “É de casa”, um programa idiota sobre coisas fúteis do cotidiano, fez este lembrete ao final.

Fosse eu um desavisado qualquer (e temos aos montes na torcida destes dois), e acharia que a Globo iria transmitir a final do mundial entre os dois clubes, tamanha era a divulgação. E olha que não era nem futebol profissional.

A questão não é a divulgação em si. A Globo está mais do que certa em divulgar seus eventos para atrair audiência. A questão é: outros times teriam este mesmo tratamento?

Aí depois a audiência da final da copinha é a maior já registrada, ou uma das maiores, e a Globo usa a justificativa de que foi assim, única e exclusivamente por envolver Flamengo e Corinthians, ignorando a própria divulgação especial que ela mesma fez.

E passa a usar este fato para justificar o aumento das cotas.

E agora, vem a resposta ao que muitos perguntam: Porque a Globo estimula este círculo vicioso? Porque ela prefere um campeonato desequilibrado, ao invés de ter em mãos, um produto forte como a “Premier League”.

Para compreender este ponto, precisamos entender os dois principais modelos vigentes no mundo hoje em dia.

De um lado, temos o modelo que valoriza o próprio campeonato em si, como o produto mais interessante.

Como maiores representantes desde modelo, temos a “Premier League” (a liga mais valorizada no mundo do futebol), e os esportes americanos (NBA, NFL, etc).

Neste modelo, o que importa é ter um produto de alto nível, altamente competitivo, e com o maior número possível de postulantes ao título.

Para este modelo, o que vende é um campeonato forte, que atraia o público pela competitividade dos participantes, e não exclusivamente pelo tamanho de uma torcida.

É muito mais interessante um campeonato com 10 postulantes ao título, emocionante, equilibrado, pois é isso que fará as pessoas comparem os jogos, comparecerem aos estádios, e se interessarem pelo torneio.

Com os times fortes, o campeonato se torna muito mais vendável e atrativo para os torcedores, e para o público em geral.

Do outro lado, temos o modelo espanhol, que trabalha a marca de dois clubes eleitos, em vez do campeonato em si.

Por este modelo, são eleitos dois clubes para rivalizarem a nível nacional, ignorando-se os demais, fortalecendo estes dois de tal forma, que se tornem presenças constantes nas competições internacionais.

Com o fortalecimento abissal destas duas equipes, abre-se mão do campeonato nacional como produto, mas ganha-se duas marcas muito fortes, que passam a ter muita relevância no exterior.

E como se faz isso? Quando estas duas equipes começam a ganhar tudo a nível nacional, passam a ser figuras constantes nos torneios intercontinentais. Por terem muito dinheiro, passam a montar equipes fortíssimas, e que se sobressaem até mesmo aos times que disputam os torneios mais equilibrados em outros países.

Isto ocorre pois, como nos outros países o campeonato é mais equilibrado, há uma maior rotatividade nas equipes que disputam os torneios intercontinentais.

Para tomar como exemplo o modelo espanhol, Real e Barcelona disputam a “Champions League” todos os anos, com times fortíssimos, e são marcas extremamente mais fortes do que o campeonato espanhol como um todo. Muito mais vendáveis.

Quem compra Real e Barcelona está se lixando para o campeonato espanhol.

Está comprando duas marcas, que foram trabalhadas para serem as maiores do mundo. As de maior visibilidade. Pois são duas marcas constantemente presentes e vencedoras do maior torneio do mundo hoje, a “Champions League”.

Pra eles, é até melhor que o campeonato espanhol seja fraco. Imaginem se os outros clubes se fortalecem, e Barcelona e Real Madrid deixam de ter o seu lugar cativo na “Champions League”? O que ocorreria com a visibilidade destes dois? E o “maior clássico do mundo”? Enfrentaria a concorrência do Valência? Do Sevilla?

E agora, chegamos ao motivo, a meu ver, deste círculo vicioso imposto pela Rede Globo.

Em algum momento, chegou-se a conclusão dentro da emissora, de que ela poderia ganhar mais dinheiro com a internacionalização de Flamengo e Corinthians, do que com o campeonato brasileiro em si.

Claro que nunca adivinharemos o motivo, mas talvez por sermos um país essencialmente exportador, e não comprador, a Globo tenha chegado a conclusão de que nunca conseguiria alçar o campeonato brasileiro ao nível de uma “premier league”, de uma “nba”, pois faltaria material humano para isso (já que os grandes jogadores sempre deixariam o campeonato).

Em virtude disso, optou pelo modelo espanhol, pois se conseguir criar uma disparidade enorme de Flamengo e Corinthians para os demais clubes, poderá tê-los constantemente disputando e ganhando competições internacionais, trabalhando estes dois clubes como as grandes potências das Américas.

Nem que isto custe a morte do nosso campeonato em termos de competitividade e, consequentemente, em termos de produto.

E enfim, chegamos ao ponto final deste tema. A meu ver, a entrada do Esporte Interativo na jogada, com o suporte e experiência da Turner, pode mudar este quadro. Mas para isso, precisamos contar, é claro, com uma visão empresarial mais aguçada dos próprios clubes envolvidos.

E para alcançarmos o ponto ideal, serão necessários alguns sacrifícios de curto prazo, objetivando a manutenção da competitividade de longo prazo.

Por isso, coragem Fluminense! Nosso futuro depende da quebra deste círculo.

Abs,

Alan Petersen