O imortal e os protocolos




Fred (FOTO: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.)



Buenas, tricolada! Pois é, Don Fredón está de volta! Demorei a me pronunciar sobre o acontecimento porque preferi deixar a poeira assentar e, aí sim, descrever os meus sentimentos, expor as minhas teses e opinar de maneira centrada e de acordo com as minhas convicções.

Vi entre amigos mais chegados, torcedores das redes sociais, e recebi ligações ao telefone (caiu em desuso, mesmo), regozijos incontidos com a matéria. Pude perceber, à distância e quase por osmose, uma saraivada de sorrisos íntimos de alívio – e orgulho. Uma felicidade que não cabia no peito de cada tricolor vivo – e preconizava reviravoltas dos guerreiros de outras dimensões nas suas tumbas. Uma alegria similar às das comemorações de títulos. E compartilho de toda essa euforia. Eu queria o malandro na casa novamente!

Muitos não toleraram a volta e Fred, mas, creio e observo, trata-se de porcentual mínimo. Basta passarmos as vistas nos grandes portais, nos sites especializados, nas próprias redes sociais, olharmos as emissoras de TV e conversamos com inúmeros tricolores, que o veredicto é único, guardando a maioria: bola dentro da diretoria!

Na “live” de apresentação do jogador, vi estes mesmíssimos críticos transbordarem lágrimas de seus olhos emocionados, depois de semanas desferindo algumas declarações céticas sobre a sua recontratação. Ouvi de gente que não frequenta os estádios há séculos por razões diversas jurarem presença na sua reestreia. E, mais tocante ainda, vi também um Frederico Guedes absolutamente contrito declarando o seu amor inegociável pelo Fluminense Football Club. Isso mexe com o íntimo até de corações endurecidos e calejados! O cara é marketeiro e joga bem pra galera? Sim, é cristalino, mas enxerguei igualmente sinceridade em seu discurso. Ademais, nós precisávamos da reconquista desse orgulho visceral.

Enquanto o mundo chora a pandemia, no momento em que nos trancafiamos nos nossos lares – longe de familiares, parceiros e vida social, quando as notícias dão conta de que os clubes rivais estão à pique e correndo sérios contratempos econômicos, o Fluminense Football Club resgata a própria autoestima e a dos seus torcedores, vira manchete e repatria um ídolo!

Parabéns ao Mário Bittencourt e colaboradores, que aparentemente vêm recolocando o Flu nos seus devidos trilhos de triunfos desde que assumiram a cátedra. E a cereja do bolo, em pleno caos mundial, foi a reintegração ao Laranjal de alguém do tamanho do ex/novo camisa 9! Um anúncio de retorno apoteótico, no dia da reprise de Flu e Palmeiras de 2012, quando comemoramos o Tetracampeonato Brasileiro.

Desde já, Fred desabriga temporariamente a alcunha de ídolo para entrar em definitivo no rol dos imortais. A sua assinatura na riquíssima história do Flu no decorrer de nove anos recebeu o seu próprio endosso nesse retorno. O cara já entrou para a eternidade! No campo de jogo, é evidente que o centroavante não terá as mesmas performances de outrora, mas isso é papo para uma outra coluna. Somente como preâmbulo, como revelou um meme recente de algum tricolor fanático, “se o Fred não é mais o mesmo, depois de oito anos, nós também não somos… Basta olharmo-nos em nossos espelhos”!

O Fluminense necessitava, sim, urgentemente, de referências. O ambiente conturbado que nos acompanhava nos últimos anos vem dando o seu gradativo e irrefutável adeus. Havia – e há – uma carência absurda de emblemas e insígnias no nosso clube de coração, e o Frederico vem suprir essa demanda: marketing agressivo e de resultados, mais sócios, mais estádios cheios (espero), mais mídia e mais respeito alheio são atributos que nos serão pares de agora em diante.

Nada de helicópteros. Nada aeroportos repletos de fanáticos. Fred reinventou protocolos ao pedalar de sua casa, em BH, até as Laranjeiras durante quatro longos dias – e noites! Atrelado à tal novidade, o ser humano de bem, habitante na sua natureza e eixo, arrecadou cestas básicas para atender os mais carentes neste momento de incertezas pandêmicas. É verdade, Fred está institucionalizando a sua própria imagem, mas e daí?

Para cerrar definitivamente quaisquer pórticos a respeito do tema, vejo nos “inimigos” da chegada de Fred as mesmas almas que torcem o nariz para eventuais reingressos de Thiago Silva, Mariano e Marcelo, por exemplo. “Ah, o Fluminense vai se transformar em time de másteres”! Falo por mim, eu gostaria de rever estes três ídolos também em Álvaro Chaves. Temos uma molecada de Xerém boa de bola no elenco, dois gringos jovens que ainda devem mostrar serviço, e já contamos com alguns nomes experientes. A mescla inteligente na escalação do onze titular, portanto, caberá ao Odair Hellmann… Ele recebe salários pra isso! E o ganho institucional do FFC, com contratações deste peso e porte, é imensurável!

O curioso e intrigante é que o Flamengo foi buscar Rafinha, com 34 anos, e Filipe Luís, com a mesma idade, e a mídia, as torcidas rivais e os próprios rubro-negros soltaram rojões e declararam debochadamente que o seu clube mudou de patamar! Velha história: “the neighbor’s grass is always greener” (a grama do vizinho é sempre mais verde)!

A propósito de protocolos, algumas reflexões são prementes. Sobre o retorno precipitado do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro, fedem os poderes.

O Presidente da FERJ, Rubens Lopes, o Rubinho, um misto mal acabado de Otávio Pinto Guimarães e Caixa D’água – os dois eternos, intermináveis e últimos mandatários da Federação do Rio – sem as mesmas competência, carisma e representatividade, impõe a sua vontade nada salutar diante das desnecessárias e absurdas verves econômicas que vêm norteando o Brasil neste nefasto período. Como mencionei no último texto, sob as pressões do Flamengo e pretextos inimpugnáveis.

O Prefeito da Cidade Maravilhosa, Marcelo Crivella, num efêmero arroubo de consciência, mas logo depois retomando a sua conhecida bipolaridade, dita e desdita regras de interrupção e continuidade do Campeonato Carioca a cada sonora, dando a nítida impressão de proceder uma queda de braços com os “donos da FERJ”, na qual não admite derrota.

O TJD, Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro, sob argumentos falidos e visivelmente sectários, além de uma lacônica aura de Poncio Pilatos, lava as mãos e derruba as petições dos DOIS ÚNICOS CLUBES que buscam a ordem e a trilha correta: Flu e Bota! Oras, sem essa de que ambos estão quebrados, não pagam os seus atletas e, por isso, lutam pela permanência da quarentena. O Vasco também sofre de tais males – talvez até piores – e se dispõe aos riscos! Fluminense e Botafogo querem jogar a partir das datas estipuladas pelos órgãos competentes da saúde, e não naquelas vindicadas por entidades ignorantes e impostoras no enunciado.

O Flamengo, aliado ao Vasco e aos clubes pequenos do Rio, permanece incólume na sua batalha egoísta de prosseguir o torneio, menosprezando as recomendações dos referidos organismos de saúde. Os exemplos funestos mundiais de desrespeito, dor, perdas e desespero tornaram-se bufões no baú desses irresponsáveis, e baseiam-se em posições, conceitos e entrevistas à imprensa que lembram muito as retóricas políticas pra lá de questionáveis de Odorico Paraguassu, na novela “O Bem Amado”, do escritor Dias Gomes! E, pior, utilizaram, no recomeço do Campeonato Carioca, ante o Bangu, um Maraca que ladeia um dos hospitais de campanha no combate ao novo coronavírus. Ainda há quem defenda tamanha sandice!

Então, tudo como d’antes no quartel de Abrantes! O Brasil não é para amadores. E o Rio de Janeiro, de belas praias, povo hospitaleiro, berço do samba e Cidade do maior estádio de futebol do planeta homeopaticamente se transformou no grande celeiro da bagunça, da discórdia, dos interesses, da egolatria, do individualismo, do cinismo, da politicagem e das trincheiras onde se agrupam covardemente os “generais de dez estrelas”, a quem o Renato Russo fazia irônica referência, repleta de rejeição, julgamento e revolta.

Mas o Fluminense Football Club é maior! Nem mesmo as ameaças de W.O. restringirão as ações acertadas que a nossa diretoria vem adotando. Querem tocar adiante o Campeonato Estadual? Que o façam, mas sem a força, as glórias e a biografia do clube das três cores que traduzem tradição! Garanto que as perdas desses incautos serão contabilizadas logo em seguida, já que o verde, o branco e o grená confundem-se com a própria história do desporto.

Saudações eternamente tricolores!

Ricardo Timon



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