O treinador: é necessário ter convicção




Foto: Lucas Merçon / Fluminense F.C.



Fluminense existe para fornecer boas emoções ao seu torcedor. Conquistar um campeonato é o ponto máximo, traz orgulho de pertencer àquela comunidade de torcedores, vontade de vestir camisa, pendurar bandeira e mostrar para todos que o campeão é o nosso time, para o qual torcemos sem explicação racional. 

Mas não é só o primeiro lugar que traz satisfação. Vencer jogos importantes, conseguir classificações suadas, grandes viradas, frustrar rivais, tudo isso tem valor. São momentos que colocam lenha na paixão e dão sentido a essa relação quase religiosa, que morre quando entregue à frieza de longos períodos disputando nada.  

E não falo apenas de sucessos em competições do mais alto nível. Quem não enche a boca para falar da sequência que nos livrou do rebaixamento em 2009 ou não deu um sorriso de orelha a orelha quando vencemos o Sport e entramos no G4, em 2016, depois de anos? Quando eliminamos a LDU na Sul-Americana de 2017? ou quando fizemos 3 a 0 no Vasco no Carioca daquele ano? Quando eliminamos o Nacional-URU na Sula de 2018, ou quando viramos o jogo contra o Grêmio no ano passado, tendo tomado 3 a 0 no 1º tempo? Quando vencemos o Flamengo, favoritíssimo, na final da Taça Rio, após eles passarem a tarde tentando atropelar a ética para lucrar mais um pouquinho nas nossas costas?

Mas nem sempre os bons sentimentos vêm de vitórias. No caso do Fluminense de 2019, atolado em dívidas e coadjuvante contumaz dentro de campo nos anos anteriores, outro elemento foi importante para orgulhar o torcedor: o domínio do adversário. 

No Carioca do ano passado, comandados por Fernando Diniz, tivemos números até piores que os de 2020. Apesar dos similares aproveitamento (15 jogos: 7V/4E/4D contra 16 jogos: 8V/3E/5D) e número de gols marcados (26 contra 27), na temporada atual avançamos até a final e, mais importante, vencemos mais clássicos (2019, em 7 clássicos: 1V/2E/4D contra 2020, em 8 clássicos: 3V/2E/3D). Aliás, em 2020 vencemos os três rivais (incluindo um 3×0 no Botafogo) e só fomos derrotados pelo Flamengo.

Mesmo assim, Diniz começou o Brasileiro com moral. Apesar de derrotados, fomos protagonistas na maioria dos clássicos. Posse de bola, várias finalizações, mas a bola insistia em não entrar e acabávamos perdendo por descuido. Parecia que estávamos a um detalhe do sucesso. E isso é importante, porque, após anos sem esperar nada de nossos times, passamos a ter ansiedade pela próxima partida, um desses sentimentos que dão sentido à devoção do torcedor. 

As derrotas continuaram e, por muito tempo, buscamos descobrir o detalhe faltante: os gols  perdidos pelo Luciano, o meio campo pesado (quando jogavam Airton e Bruno Silva), a falta de goleiros confiáveis, a arbitragem, depois o meio só com um volante… Só que a questão era muito mais simples: o trabalho era ruim, o estilo de jogo é que era legal. Tanto que depois escapamos com facilidade de um rebaixamento fatal, que parecia inevitável. Mas curtimos tanto o estilo, que até Diniz tem suas “viúvas” na arquibancada, apesar de ter tido um dos piores aproveitamentos da década no Brasileiro. 

Diante desse cenário, entendo que deveríamos ter investido em um treinador com proposta similar no início do ano. Primeiro, porque a torcida evidentemente gostou de ter a bola, tomar a iniciativa, ser protagonista nos jogos, agredir o adversário. Isso trouxe prazer para o torcedor, foi motivo de orgulho, fomentou a paixão. Segundo, porque daria para aproveitar alguns pontos positivos do time de 2019, sem que precisássemos começar um trabalho do zero. Terceiro, porque havia nomes desse perfil disponíveis no mercado.

Mas isso não aconteceu. A gestão apostou no Odair. À época, Paulo Angioni justificou que “ele já conhecia o Fluminense”, que “avaliamos todo o trabalho do Odair” e que ele é “um cara que tem gestão de ambiente muito boa”. Me parece uma escolha amparada na busca de resultados melhores. Isso não é pecado: o estilo de jogo é apenas um dos elementos do qual nos orgulhamos, mas a grande maioria deles tem a ver com as vitórias. 

E, sendo esse o raciocínio, a decisão fazia algum sentido: Odair fez um trabalho sólido no Internacional. Em quase dois anos (segundo mais longevo por lá), conduziu o clube da série B à Libertadores. Teve 60,34% de aproveitamento e disputou final de Copa do Brasil. Apesar de eu discordar, foi uma escolha legítima. 

Antes da parada por conta da pandemia, eliminação precoce na Sula e derrota na ida da 1ª fase da Copa do Brasil. Na volta, desempenho sofrível até a final da Taça Rio contra o Flamengo. Chegamos ali como azarões totais, e com a paciência esgotada com o técnico. Aí vencemos, nos pênaltis, e fizemos um bom jogo de ida da final do Carioca. O treineiro virou gênio. Na volta, derrota com atuação ruim e péssimas substituições. Eis que Odair volta a ser burro e clamamos pela demissão.

Sinceramente, não me parece a melhor decisão. É verdade que o trabalho até agora é ruim, mas não é razoável exigir resultados nessas condições. Antes da pandemia, não foram nem 3 meses no clube. Na volta, após inatividade maior que as de início de temporada, tivemos muito menos tempo de condicionamento físico que os adversários. 

Penso que tamanha dureza das críticas vem, nesse momento, pela falta de esperança, que estava presente quando perdíamos jogando bonito em 2019. Mas, se a diretoria contratou com convicção de que os resultados serão melhores que os dos últimos anos, e se esse foi objetivo da escolha lá atrás, não há motivo para troca, ao menos nesse momento.   

E se a diretoria contratou sem convicção? Aí estaremos em maus lençóis. Com Odair ou sem ele, a tendência será trocar de comando nos primeiros revezes. Isso ceifa a possibilidade de um trabalho duradouro, que evolua com o tempo, e nos deixa na mão da sorte de vir alguém que encaixe o time de primeira, sem tempo para treinar. Nessa toada, desde o último ano como protagonistas, em 2012, foram 15 treinadores em 7 anos. Aonde chegamos com isso?

VENCE O FLUMINENSE!

Tarik Moussalem



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