Colunista Lindinor Larangeira analisa os bastidores das saídas de atletas formados em Xerém sem compensação financeira imediata e questiona quem realmente lucra no processo.
(por Lindinor Larangeira)
Quando o Fluminense anuncia que um jovem de Xerém foi liberado “sem compensação financeira imediata”, a impressão que fica para o torcedor é a de que o clube simplesmente abriu mão de um ativo. Mas a realidade é mais complexa — e, muitas vezes, bastante lucrativa para alguns dos envolvidos. A narrativa de que “o jogador saiu de graça”, ou “0800”, como se diz na gíria, esconde um mercado milionário. E, estranhamente, não se sabe por qual motivo ou interesse, mantido quase oculto pela mídia.
Por isso, aproveito a oportunidade desse espaço qualificado de discussões, que é o Explosão Tricolor, para trazer uma sugestão de pauta a ser aprofundada por outros veículos de imprensa.
Nos últimos anos, tornou-se comum ver promessas de Xerém deixarem o clube sem que entre um centavo nos cofres tricolores no momento da saída. A justificativa oficial, quase sempre, segue um duplo padrão: “O atleta não tem espaço no elenco profissional. O contrato estava próximo do fim, e, em vez de perder o jogador sem qualquer retorno futuro, o Fluminense aceitou a rescisão ou uma transferência facilitada, preservando percentuais sobre negociações futuras”.
A questão é que, enquanto o clube aposta em um lucro incerto, em um futuro não sabido, há agentes e intermediários que frequentemente realizam seus ganhos imediatamente.
O modelo que virou rotina em Xerém
A prática se consolidou no futebol brasileiro e encontrou terreno fértil em Xerém. O mecanismo funciona de forma relativamente simples: o Fluminense libera o atleta, mas mantém uma fatia de uma eventual venda futura, seja por meio de direitos econômicos, cláusulas de mais-valia ou percentuais de revenda.
Na teoria, trata-se de uma aposta. Se o jogador explodir no exterior e for negociado por milhões de euros, o Tricolor recebe uma parcela relevante da operação sem ter arcado com salários ou custos de manutenção durante esse período.
O problema é que essa engenharia financeira transfere o risco para o clube formador e concentra ganhos imediatos em outros agentes da cadeia.

Os atravessadores nunca perdem
Enquanto o Fluminense renuncia a uma receita presente para tentar capturar uma receita futura, empresários e intermediários costumam sair da mesa já recompensados. Isso mesmo: os atravessadores ganham sempre.
O primeiro mecanismo de realização de lucros são as chamadas luvas de assinatura. Como o clube comprador não precisa desembolsar uma taxa de transferência, parte desse dinheiro é direcionada para convencer atleta e representantes a fechar o negócio. As comissões dos empresários costumam estar atreladas justamente a esses bônus.
Também existem os percentuais vinculados aos contratos dos jogadores. Quanto maior o salário obtido no novo clube, maior a remuneração dos agentes. Na prática, uma transferência sem custos para o comprador pode gerar condições salariais mais vantajosas para o atleta e, consequentemente, ampliar os ganhos de seus representantes.
Em muitas situações, ainda há pagamentos por intermediação diretamente realizados pelo clube estrangeiro. São valores relacionados à estruturação jurídica e comercial do negócio, remunerando os profissionais responsáveis por viabilizar a transferência.
O lucro que o Fluminense espera encontrar no futuro
Para o Fluminense, a aposta está em duas frentes:
A primeira é a cláusula de revenda. Se o clube mantém, por exemplo, 30% de uma negociação futura e o atleta for vendido posteriormente por € 10 milhões, o retorno pode ser expressivo.
A segunda proteção é o mecanismo de solidariedade da FIFA, que garante aos clubes formadores uma participação obrigatória nas transferências internacionais realizadas ao longo da carreira do jogador.
Em tese, isso impede que Xerém fique totalmente de mãos vazias caso um atleta se valorize no exterior.
O ponto central do debate
A discussão não é sobre a legalidade ou não dessas operações. Elas são comuns no mercado mundial e fazem parte da gestão de ativos do futebol moderno.
O que merece reflexão é a frequência com que o Fluminense se vê obrigado a apostar em receitas futuras, enquanto agentes e intermediários conseguem monetizar essas movimentações de forma imediata.
Quando uma promessa sai de Xerém sem gerar caixa instantâneo, o clube assume o papel de investidor de longo prazo. Forma o atleta, banca anos de desenvolvimento e espera colher frutos mais adiante. Já os empresários normalmente deixam a negociação com ganhos concretos no presente. E é justamente aí que está a principal pergunta para o torcedor tricolor: em quantos desses casos o Fluminense efetivamente ganhou mais do que aqueles que participaram da intermediação das saídas? A outra indagação é: porque se manter “parcerias”, evidentemente, nocivas aos interesses do clube?
A triste realidade é que no futebol brasileiro, nem sempre quem forma é quem mais lucra. Muitas vezes, quem realmente ganha é quem negocia. A pergunta final desse texto não poderia ser outra: até quando?
⚠️ PLANTÃO: Últimas notícias do Fluminense [Clique aqui para ver o resumo de todas as movimentações de hoje]
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