Em entrevista, Pedro Trengrouse sai em defesa da obrigatoriedade de conversão de clubes em empresas




Pedro Trengrouse (Foto: Divulgação)



Em entrevista concedida ao jornalista Bruno Marinho, do jornal “O Globo”, o advogado e coordenador acadêmico do programa FGV/FIFA/CIES em Gestão de Esporte, Pedro Trengrouse, saiu em defesa da obrigatoriedade de conversão de clubes em empresas e reclamou de quem aproveitou a lei para conseguir novas condições de pagamento das dívidas sem oferecerem a contrapartida da migração para SAF (Sociedade Anônima do Futebol).

Confira a entrevista na íntegra:

Você vê alguma maneira para se corrigir essa distorção?

Sim. A Lei pode obrigar clubes de futebol profissional a se converterem em empresas, a exemplo do que aconteceu na Europa. Cabe ao Estado desenhar o marco regulatório para o desenvolvimento de qualquer atividade econômica, com regras para gerar estabilidade, previsibilidade, eficiência e, também, estabelecer o equilíbrio dos interesses envolvidos. O Projeto de Lei do Clube Empresa, aprovado na Câmara e em tramitação no Senado, pode ser ajustado para isso. A reforma da Lei Pelé poderia ser outra solução. E, além disso, também é fundamental tratar do ecossistema com o PL que determina a criação da Liga, inspirado na legislação de Itália e Espanha.

Por que o futebol brasileiro resiste tanto à ideia de clubes virarem empresas?

É a primeira Lei de Newton: o princípio da inércia. Nos países em que clubes não nasceram empresas, só se transformaram porque foram obrigados por lei, como aconteceu na França e na Espanha. Em Portugal, por exemplo, primeiro fizeram uma lei como a nossa, tentando criar incentivos. Não houve aderência. Anos depois, a lei obrigou e os clubes então se estruturaram empresarialmente.

E por que uma empresa compraria um clube de futebol no Brasil?

Porque é um ótimo investimento, além de abrir portas para outros negócios e reforçar ações de responsabilidade social. Atualmente, o patrocínio master de um clube na Série A gira em torno de R$ 15 milhões. A Redbull, por exemplo, comprou o Bragantino por R$ 45 milhões, o equivalente a três anos de patrocínio. Hoje o clube vale mais de R$ 400 milhões. O mesmo aconteceu com o Redbull New York, comprado por 25 milhões de dólares e que hoje vale mais de 300 milhões de dólares. A empresa transformou despesa de marketing em investimento e, ao invés de custo de aquisição de clientes, tem lucro de aquisição de clientes.

No Japão, praticamente todos os clubes pertencem a empresas como Fuji, Hitachi, Rakuten, Panasonic, Nissan, Mitsubishi e Toyota. Na Korea, Samsung e Hyundai também tem seus clubes. No México quase todos os clubes pertencem a empresas como Televisa, Caliente, Salinas, Pachuca e FEMSA. Algumas delas inclusive operam no Brasil. Por que não compram clubes aqui também? Por que empresas brasileiras não compram clubes? E detalhe, com bom planejamento tributário, é possível deduzir boa parte desse investimento da base de cálculo do imposto declarado por lucro real. Com o marco regulatório certo e a melhora do ambiente de negócios, certamente muitas empresas investirão.

Por que o investidor de fora buscaria uma SAF brasileira e não um clube europeu?

O Brasil é reconhecido no mundo inteiro pela qualidade do futebol dentro de campo. É o único país entre os principais mercados que ainda não tem liga profissional nem investimento empresarial maciço nos clubes. Com o marco regulatório correto, o potencial de crescimento é enorme, assim como aconteceu nos outros países, quando a liga profissional foi criada e os clubes foram obrigados a se estruturar empresarialmente. Também, investir no futebol brasileiro pode ser a porta de entrada para negócios muito maiores.

Existem apenas três países com população acima de 200 milhões de habitantes, território maior que 5 milhões de quilômetros quadrados e PIB acima de 1 trilhão de dólares: Estados Unidos, China e Brasil, que é uma das maiores economias do mundo e a maior da América Latina. Ainda, nesse momento em que o Real é uma das moedas mais desvalorizadas do planeta, investir no Brasil representa a possibilidade de ganhos cambiais expressivos.

Mas investidores com demandas de soft power e/ou sportswashing viriam para cá? Por quê?

Sim. O futebol, assim como a Bossa Nova, é importantíssimo para o soft power (poder de influência de um país) do Brasil e quem investir no futebol brasileiro sem dúvida alguma poderá aproveitar bastante esse goodwill (patrimônio de marca).

Uma preocupação é que clubes, ao serem vendidos, sejam transformados em meros formadores de mão de obra. Há alguma maneira de o clube associativo vincular o desempenho esportivo às metas da SAF?

Essa preocupação não me parece razoável. Atualmente, a grande maioria dos clubes brasileiros já não serve de mera incubadora de jogadores para o futebol do exterior? O investimento empresarial nos clubes representa justamente a possibilidade de finanças saudáveis, capazes de permitir que alcance melhores resultados esportivos.

Cabe ao Estado participar dessa captação de investimentos para os clubes brasileiros? Como seria?

Sim. É fundamental que o futebol esteja inserido nas discussões estratégicas do país. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), por exemplo, poderia atuar para promover o futebol brasileiro no exterior e atrair investimentos estrangeiros. Na França, uma articulação direta do então Presidente Nicolas Sarkozy inseriu o futebol francês na parceria estratégica de investimento com o Qatar, que além de comprar o Paris Saint-Germain, investiu em todo ecossistema através da aquisição de direitos pelo grupo de mídia beIN. O papel do Estado é promover um ambiente de negócios saudável, através de boa regulação e da inclusão do futebol como questão estratégica, daí pra frente o mercado resolve.

O grande endividamento de muitos clubes que miram a SAF afasta ou atrai o investidor? Ele interfere no valor dessa nova SAF criada?

O valor de um ativo é o que o mercado paga. Fundos especializados em ativos estressados podem se interessar por clubes em situação financeira delicada, inclusive assumindo a gestão, com participações societárias, títulos de dívida conversíveis, ganhos em valorização futura, etc. Outra hipótese, agora que a lei prevê que clubes associativos estão sujeitos à falência, é a compra de dívida com deságio em volume suficiente para obrigar o clube a se estruturar empresarialmente, através de recuperação judicial, com a conversão da dívida em ações e a consequente aquisição do controle. E é bom que se diga, o futebol é um negócio tão bom que vem sobrevivendo mesmo com administração amadora e tanta dívida. À exceção das receitas de TV, praticamente todas podem crescer muito, a começar por estádios, sócio-torcedor, engajamento tecnológico e interação direta com grandes marcas. Redbull comprando o Bragantino e a arrecadação recente com tokens evidenciam isso.

Que clube brasileiro você vê hoje como mais organizado para atrair investidores para a SAF?

Hoje, o Athletico Paranaense me parece o mais organizado para atrair investidores. Está com as finanças equilibradas,infraestrutura de padrão internacional, bons resultados esportivos e a implementação da SAF teve aprovação de 90% da Assembléia Geral. Além disso, tem estabilidade política e seu principal dirigente, Mario Celso Petraglia, defende há muito tempo essa mudança. Tem tudo para sair na frente.

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Por Explosão Tricolor

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