O silêncio da CBF é o verdadeiro problema

Colunista analisa a polêmica no empate contra o Athletico-PR, o impacto de boatos nas redes sociais e defende que o clube não pode se contentar com respostas genéricas.

Lindinor Larangeira: O silêncio da CBF é o verdadeiro problema

Em nova coluna no Explosão Tricolor, Lindinor Larangeira critica a falta de transparência da CBF e cobra exigência de posicionamento oficial do Fluminense sobre áudios do VAR.

Por Lindinor Larangeira

O empate por 3 a 3 entre Fluminense e Athletico-PR deveria ser lembrado pela intensidade da partida e pela qualidade das equipes. No entanto, mais uma vez, o futebol brasileiro se vê sequestrado por uma discussão que já deveria estar superada: a falta de transparência da arbitragem.

O pênalti marcado nos acréscimos contra o Fluminense, convertido pelo Athletico e decisivo para o resultado final do jogo, provocou uma enxurrada de questionamentos. A maior parte dos analistas de arbitragem da imprensa, entre eles Paulo César de Oliveira e Carlos Eugênio Simon, considerou equivocada a marcação da penalidade. Para esses especialistas, não houve infração do goleiro Fábio sobre o atacante Kevin Viveros.

Como consequência natural da controvérsia, a torcida tricolor passou a cobrar a divulgação dos áudios do VAR relacionados ao lance. Afinal, se houve uma decisão tão contestada, qual o problema em tornar público o diálogo entre o árbitro e a cabine?

Simon apontou erro da arbitragem no pênalti marcado para o Athletico-PR contra o Fluminense
Foto: Reprodução / Premiere

Áudio nas redes: fato ou fake?

Nas últimas horas, um áudio passou a circular nas redes sociais. Seria verdadeiro ou falso? Fato ou fake? Nele, o árbitro Felipe Fernandes de Lima (MG) aparecia recusando a revisão do VAR, desejando boa sorte ao cobrador da penalidade, o artilheiro Viveros, e ameaçando expulsar Fábio, caso o goleiro se movimentasse antes da cobrança.

Até o momento, porém, não existe qualquer comprovação de autenticidade desse material. Pelo contrário. Como a CBF não divulgou oficialmente os áudios desse lance específico, todo conteúdo que circula na internet deve ser tratado como mera especulação, montagem ou boato. Pelo menos, por enquanto…

Uma confederação pouco transparente

Mas o fato de o áudio ser possivelmente falso não inocenta a CBF de críticas. Ao contrário. A ausência de transparência cria exatamente o ambiente ideal para o surgimento de rumores, teorias conspiratórias e desconfianças. Quando a entidade responsável pela arbitragem decide omitir informações relevantes de um lance que movimentou o noticiário esportivo nacional, ela própria alimenta a crise de credibilidade que diz combater.

Se os diálogos confirmam a correção do procedimento da arbitragem, por que não divulgá-los?

Se a checagem do VAR validou a decisão de campo, por que impedir que torcedores, jornalistas, clubes e profissionais da imprensa tenham acesso a essa decisão?

O argumento burocrático de que não houve revisão formal no monitor e que, portanto, a divulgação não faz parte do protocolo rotineiro da Comissão de Arbitragem, não convence. A própria CBF possui autorização da FIFA para divulgar áudios de lances que não passaram pela revisão de campo. Ou seja, trata-se de uma escolha política, não de um impedimento técnico ou jurídico.

CBF quer o retorno da “Lei Falcão”?

O fato lembra bastante os tempos mais duros da ditadura militar, quando foi implantada a chamada “Lei Falcão”, que ficou conhecida pela famigerada frase do ministro da Justiça, Armando Falcão: “Nada a declarar”.

Felizmente, embora muita gente sinta saudades desses tempos sombrios, vivemos hoje em uma democracia. E esse fato torna-se ainda mais preocupante porque o futebol brasileiro convive, há décadas, com suspeitas, polêmicas e interpretações conflitantes sobre a atuação da arbitragem. Será que o “caso Edilson” foi esquecido? Em vez de adotar uma política radical de transparência, semelhante à praticada em outros países, a CBF insiste em tratar a informação como patrimônio privado.

Não deveria ser assim

A tecnologia do VAR foi introduzida com a promessa de reduzir erros e ampliar a confiança dos torcedores. Entretanto, quando os critérios utilizados permanecem ocultos, o efeito pode ser exatamente o contrário. O torcedor deixa de discutir futebol para debater os bastidores. A partida sai do centro das conversas e a arbitragem assume o protagonismo. Isso é péssimo para o espetáculo.

Diante desse cenário, a pergunta inevitável é: a diretoria do Fluminense deve solicitar formalmente a divulgação do áudio? A resposta direta é sim.

Não se trata apenas da defesa institucional do clube. Trata-se de defender o princípio da transparência no futebol brasileiro. Se houve erro, ele precisa ser conhecido. Se não houve, a arbitragem merece que os fatos sejam esclarecidos publicamente.

Diretoria do Fluminense tem a obrigação de exigir transparência

Mattheus Montenegro detonou a arbitragem de Felipe Fernandes de Lima
Foto: Marina Garcia / Fluminense FC

O Fluminense não pode se contentar com respostas genéricas ou notas protocolares. A diretoria tem o dever institucional de exigir transparência. E não apenas porque, na opinião geral daqueles que vivem do futebol, o time foi prejudicado, mas porque o futebol, além de ser o esporte favorito de milhões de torcedores, transformou-se em uma indústria bilionária que precisa ser confiável.

Enquanto a CBF não tornar público esse áudio, permanecerá a sensação de que existe algo a esconder. E, quando a principal entidade do futebol brasileiro permite que dúvidas substituam explicações, o maior derrotado não é o Fluminense, nem o Athletico-PR. É o próprio futebol brasileiro. Porque campeonatos sobrevivem a erros de arbitragem. O que destrói sua credibilidade é a falta de transparência sobre a condução deles.

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Sobre Vinicius Toledo 2007 Artigos
Criador do Explosão Tricolor, Vinicius Toledo atua na cobertura jornalística do Fluminense desde 2014, com mais de 1.700 matérias e colunas publicadas sobre futebol, gestão e política do clube. Administrador de empresas com especialização em Finanças e Marketing, dedica-se à análise técnica e independente sobre os rumos da instituição. Saudações Tricolores!