O dia que João de Deus foi visto no Maracanã




Ao som de fogos de artifício e do hino do Fluminense, minhas perninhas de 7 anos de idade escalavam trêmulas as rampas do Maracanã naquele 17 de abril de 2005. Mãos nos ouvidos para abafar os estrondos que insistiam em me lembrar nos céus o inevitável: era dia de decisão de título, a minha primeira em um estádio de futebol. E assim eu me dividia entre um “dá-lhe dá-lhe dá-lhe nense seremos campeões”, com peito estufado e empáfia de campeão, e um silencioso grito de socorro dissimulado de suspiro, que expunha toda minha ingenuidade infantil e pessimismo diante do amargo 4×3 para o adversário no primeiro jogo.
Foi na arquibancada verde do Maracanã, bem atrás do gol, que eu vivenciei um dos meus preferidos e mais intermináveis pré-jogos do Fluminense.  Surdo que parecia tocar na frequência do já descompassado coração, bandeirões dançando no ar, buzinaços e incansáveis estouros de bombas. Os cânticos provocativos aos três rivais que haviam sido eliminados e até música para a incômoda e em grande número torcida do Volta Redonda – “éu éu éu, torcida de aluguel” – descontraíam o sintomático clima de tensão na torcida, otimista, mas que ainda amargurava o inesperado revés do primeiro jogo.
Na entrada em campo dos jogadores, enquanto os papéis picados lentamente subiam e desciam ao ar, se erguia um mar de braços para o premeditado e tradicional “a bênção João de Deus”. Oração em coro. Arrepiado, enquanto tentava aprender aquela linda canção, meu olhar aflito se perdia entre os torcedores que me cercavam: um senhor rezava com terço nas mãos erguidas atrás, um ambulante com uniforme falsificado interrompia suas vendas para se ajoelhar nas escadas, um grupo de garotos combinava promessas ao lado e um casal se abraçava, compartilhando aflição, na frente. Eu, com coração disparado, mãos suadas e respiração ofegante, franzia a sobrancelha e me punha em introspecção, tentando entender quem seria aquele tal de João de Deus.
Aos 9 minutos de jogo, Fábio invadiu a área do Fluminense e, com requintes de crueldade, abriu o placar para o Volta Redonda. Instantânea inversão de sons nas arquibancadas do Maracanã em melancólico contraste. Explosão do lado amarelo e preto da arquibancada, enquanto o silêncio, ao menos por alguns segundos, ecoava no estupefato lado verde, branco e grená. Entre a resignação e o otimismo, fiquei no “a bênção João de Deus” junto com minha torcida, já não mais tão animado quanto outrora. Braços mais uma vez ao ar, dessa vez não tão firmes. Enquanto escorriam algumas lágrimas, prestava atenção para decorar aquela que seria a trilha sonora do jogo, e exclamava, indignado, em meus pensamentos: “mas cadê esse tal de João de Deus?”.
No último minuto do primeiro tempo, quando o desespero já tomava conta da torcida do Fluminense, veio a redenção. Cruzamento de Fabiano Eller, e o icônico Tuta subiu para testar a bola na trave. No rebote, a bola insistiu em entrar: bateu sem querer no defensor do Volta Redonda e balançou a rede.  Na minha arquibancada, lá do outro lado do Maracanã, o lance durou uma eternidade até ser concluído. Ruído que ia subindo em agonia até explodir retumbante em libertação com o grito de gol. Enquanto comemorava loucamente, anunciava minha pura, mas não menos verdadeira descoberta: “É João de Deus! É João de Deus!”.
Enquanto o tempo passava, e os minutos aproximavam a taça do interior do Rio de Janeiro, meus olhos viajavam pelo Maracanã em busca do tal João de Deus. Em vão. Passam por uma menina ajoelhada, um favelado com dedos entrelaçados, um ébrio orando, uma criança implorando pelo gol nos ombros de seu pai. Mas nada de João de Deus.
22 minutos do segundo tempo. Falta na entrada da área, Juan na bola. Balé de braços ao ar para mais uma oração. Pela primeira vez cantei a música inteira sem errar a letra, e com absoluta convicção de que daria certo. Desvio de cabeça do Marcão. Gol!!! Ainda com os braços levantados, sem acreditar na minha profecia não anunciada, desabo no chão. “Eu sabia, eu sabia!”, com voz embargada e olhos marejados. Ainda anestesiado pela euforia, ao me levantar, constatava que outras dezenas de tricolores também haviam previsto o gol.
Mas foi aos 47 minutos do segundo tempo, no último minuto de jogo, que eu vi João de Deus. Quando Antônio Carlos subiu aos céus, de costas e cabeceou para o gol, o Maracanã veio abaixo. Como com a cabeçada de Mickey, em 70, no primeiro título brasileiro, em 84 com o toque sutil de Romerito no bicampeonato, ou em 95, com o gol de barriga de Renato.
Entre lágrimas, abraços, faixas de campeão rodopiando no ar, pais levantando emocionados seus filhos, crianças soluçando e o Maracanã em êxtase pulsando, ah, eu vi João de Deus! Ele estava em cada canto, cada fé tricolor inabalável. No batucar do surdo, no balançar incansável da bandeira, na voz inesgotável do torcedor. No tricolor desdentado, no de cabelos grisalhos, na morena de olhos azuis e na criança deslumbrada. Todos unidos e pulsando o verde, branco e grená. Ah, naquela tarde de 17 de abril de 2005 eu vi João de Deus! E quando ele aparece, não tem para ninguém.
 E assim, eu desci as rampas do Maracanã, me vangloriando com minha faixa de campeão e cantando convicto, enquanto pulava: “A bênção, João de Deus, a bênção, João de Deus, o nosso povo te abraça. Tu vens em missão de paz, seja bem-vindo, e abençoa esse povo que te ama!”
Frederico Castello Branco Speranza”

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