Análise contundente de Lindinor Larangeira escancara a ruína do Fluminense após empate sem gols contra o Rivadavia. Artigo aponta erros de planejamento, elenco caro e desequilibrado, e clama por mudanças urgentes na direção e comissão técnica para evitar o fim do sonho em Mendoza.
(Por Lindinor Larangeira)
O sonho do bicampeonato da CONMEBOL Libertadores segue vivo. Mas, se o Fluminense quiser impedir que a esperança se transforme em uma tragédia anunciada, precisa agir imediatamente.
A primeira medida é óbvia: Luis Zubeldía não pode permanecer no comando técnico. Só que a crise tricolor está longe de ser responsabilidade exclusiva do treinador. Quem construiu este elenco caro, desequilibrado e cheio de carências também precisa responder pelo fracasso.
A Culpa Começa nos Gabinetes
Por isso, a cobrança da torcida deve mirar mais acima. Mário Bittencourt e Paulo Angioni são tão ou mais responsáveis pelo momento vexatório que atravessa o futebol do Fluminense. A fase atual não nasceu apenas dos erros à beira do gramado. Ela é consequência de decisões equivocadas tomadas nos gabinetes.
O exemplo mais gritante é Castillo. Os cerca de R$ 70 milhões investidos em um atacante que, até aqui, demonstrou ser uma versão inferior de Everaldo, representam um erro de planejamento difícil de justificar. O jogador não tem culpa. A responsabilidade é de quem aprovou a contratação e de quem insiste em utilizá-lo sem explorar aquilo que parece ser sua principal virtude: o jogo aéreo.
Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: afinal, o que fazem Mário e Angioni? Porque os resultados esportivos são desastrosos, as contratações não entregam e o elenco apresenta falhas estruturais evidentes. E a dúvida se estende ao comando do clube. O Fluminense tem, de fato, um presidente exercendo sua liderança? Porque, se tem, ainda existe tempo para tomar decisões duras e necessárias.
Um Fato Novo ou o Fim da Linha
O cenário para a partida de volta, em Mendoza, exige mais do que discursos de confiança. É necessário criar um fato novo. A impressão cada vez mais evidente é que a relação entre treinador e elenco chegou ao limite.
Nesse contexto, uma solução emergencial poderia ser a entrega do comando a Fred e Marcão até a chegada de um novo técnico. Não seria uma solução definitiva, mas ao menos representaria uma ruptura com o ambiente de apatia que tomou conta do time.
Já para a direção de futebol, o caminho deveria ser outro. O Fluminense precisa de gestores profissionais, competentes e capazes de planejar além do próximo jogo. Neste caso, a troca deveria ser permanente. A questão é saber se o presidente de direito pretende, algum dia, assumir também o papel de presidente de fato.

Mais uma Noite de Futebol Deprimente
A escalação inicial foi tão estranha quanto previsível em suas consequências. Desde o primeiro minuto, a sensação era de que Zubeldía havia armado o time para não perder no Maracanã. E quem entra em uma eliminatória pensando primeiro em não perder, geralmente termina muito perto da derrota.
O treinador até tentou corrigir o estrago no segundo tempo, mas encontrou aquilo que ele próprio ajudou a construir: uma equipe mal treinada, sem repertório, sem intensidade e com alguns jogadores demonstrando pouca disposição para competir.
Se Castillo continua brigando com a bola, Arana e Hulk parecem viver em outra dimensión. O lateral praticamente não apoiou Soteldo, um dos poucos que tentou jogar futebol. Já o atacante voltou a ser notado apenas quando desperdiçou uma chance clara de gol.
A defesa, reforçada por Thiago Silva, foi um dos raros pontos positivos. Fábio também apareceu quando foi exigido, realizando ao menos duas grandes defesas. No meio-campo, porém, o vazio criativo voltou a ser alarmante. Lucho Acosta entrou sem conseguir mudar o panorama, enquanto Cano teve mais uma atuação apagada.
Um Elenco Caro Demais para Jogar Tão Pouco
O problema é ainda mais preocupante quando observamos os investimentos realizados. Castillo é a contratação mais cara da história do clube. Hulk recebe um dos maiores salários do elenco. Cano é um ídolo cuja queda física e técnica se torna cada vez mais evidente.
Como um grupo tão caro consegue apresentar tantas limitações?
E a situação se agrava porque o melhor centroavante disponível no elenco, cria de Xerém, está fora da temporada. John Kennedy faz falta dentro da área e evidencia ainda mais o erro de planejamento que deixou o Fluminense dependente de alternativas que simplesmente não funcionam.
Apesar de tudo, este elenco pode entregar mais do que tem mostrado. Não é um grupo para encantar, mas também não é um grupo para praticar um futebol digno da zona de rebaixamento. Com outra proposta tática, abandonando a obsessão pelo imutável 4-3-3, e com escolhas mais coerentes, há espaço para um desempenho muito superior.
O Sonho Termina na Terça?
Há uma frase que acompanha gerações de tricolores: “Não duvidem do Fluminense.“
Quem viveu décadas de sofrimento e glória aprende a se agarrar a ela justamente nos momentos mais difíceis. Como otimista incurável, continuo acreditando que a classificação é possível. Mas não nas condições atuais.
Porque Zubeldía não é o único responsável. E a torcida já percebeu isso. As vaias e os gritos direcionados ao treinador e à direção durante a partida foram o retrato de um sentimento que cresce nas arquibancadas: o Fluminense está pagando a conta da incompetência de quem deveria conduzir o futebol do clube.
Ainda existe esperança para Mendoza. Mas ela depende de coragem para mudar. Com um novo comando na Argentina, a classificação ainda pode acontecer. Com Zubeldía, não bastariam nem os milagres de João de Deus.
E, para que não reste dúvida sobre o sentimento de boa parte da torcida, vale repetir mais uma vez: Fora Zubeldía. Fora Mário. Fora Angioni.
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