Diniz, deixe os meninos jogarem bola!




FOTO: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.



Buenas, tricolada! Estava eu já me acomodando na minha angústia e no meu inconformismo. Mais uma vez, exageradamente a milésima delas num curto espaço de tempo, o Fluminense sairia derrotado de campo imerecidamente.
De novo, assistimos à equipe com 958 min. de posse de bola, contra três segundos e meio do adversário, os caras jogando por um mísero lance de ataque, e as profecias desenhadas no almanaque do castigo insistentemente tomando os arredores do Maraca. Elas secavam as bocas dos torcedores mundo afora e atavam nós de marinheiros nas goelas dos tricolores no estádio, nas TV’s, nos rádios, nos streamings, no Paraíso e nos mármores do inferno. Configurava-se a derradeira página dos renovados “Segredo das Centúrias”. Zarathustra decerto invejava os rumos do nosso tenebroso destino, lá do éter!
Entretanto, como frisei na minha última coluna, resultados e merecimentos andam em mãos diametralmente opostas nesse desporto apaixonante chamado futebol! O que vale é bola na rede!
Jamais imaginei, diante da draga econômica, política, administrativa e de identidade, que o Flu de Pedro Abad, FluSócio e afiliados pudesse encarar os melhores elencos do Brasil olhando nos olhos. E dominando, ditando o ritmo de jogo, encurralando os malandros… Foi assim em dois dos quatro confrontos com o Flamengo, pelo Carioquinha, contra o Santos – na Vila, contra o Grêmio – nos pampas, e contra o Cruzeiro, em casa. Todos apontados como os grandes bichos-papões tupiniquins, além do Palmeiras.
Tivemos ampla superioridade também nos clássicos regionais contra o Vasco, duas vezes, pelo Estadual, e contra o Bota, por este mesmo Estadual e pelo Brasileirão. Mas os resultados…
A grande notícia é que o nosso Tricolor das Laranjeiras hoje tem uma identificação dentro das quatro linhas… Batemos de frente com quaisquer rivais sem temê-los. E mantendo as premissas as quais o técnico Fernando Diniz acredita.
Não, não sou doido de pedra. Não sou bipolar. Nada de dicotomias. Critiquei inúmeras vezes, sim, a sua teimosia. A insistência com determinados jogadores. A marra, a prepotência e a falta de humildade para reconhecer os seus próprios equívocos, à beira do gramado e mesmo nas escalações, senhor Fernando Diniz. A obstinação por nomes que não vinham rendendo, e todos nós víamos. E especialmente a não utilização de uma galerinha boa de bola, recém saída do sub-17.
Porra, Diniz, deixe os moleques jogar futebol! Em 15 min. contra o forte Cruzeiro, nesta quarta-feira, no primeiro duelo pelas oitavas de final da Copa do Brasil, os garotos demonstraram aquilo o que nós já sabíamos. E talvez até você mesmo soubesse. Eles mudaram o rumo de uma prosa que se escrevia negativamente nos alfarrábios da história!
Marcos Paulo e João Pedro incendiaram a peleja. O primeiro, com a sua reconhecida habilidade, com personalidade e ótimas jogadas individuais ditou o cadência avassaladora do FFC no terço final do embate. O segundo, com o seu faro de gol e categoria, dando números finais ao placar: Fluminense 1×1 Cruzeiro. Ou seja, o confronto está mais aberto do que nunca.
O duelo em si não foi dos mais aprazíveis. Eu esperava mais dos mineiros. No primeiro tempo, o nosso time foi soberano, o esquadrão celeste somente se defendeu, e não vimos a nossa defesa ser incomodada. Ah, e o Gilberto foi o nosso melhor jogador. Ele vai abrir uma fábrica de canetas, só pode. É bom vê-lo confiante novamente, arriscando, tentando o fundo e as jogadas individuais. Falta um pouco de capricho nos cruzamentos e mais intensidade na marcação.
A nossa defesa foi soberana. Rodolfo, um mero espectador, e o Caio Henrique desfilou em campo. Verdade que a Raposa não queria nada com o basquete, mas era o Cruzeiro, caramba!
Allan fez ótima partida. Impressionante como o menino acertou TODAS as inversões de jogadas, com passes de 40 metros. Daniel vem melhorando gradativamente, o PH Ganso viveu de alguns lampejos – mas no macro ele foi bem, e o Léo Artur parecia nervoso. Errou mais do que o normal, apesar de um bom chute no começo do jogo.
Yony e Luciano não viram a cor da bola. Aliás, creio que o Luciano esteja vivendo a sua pior fase desde que chegou no Laranjal. Parece sem confiança e abalado pela sequência de oportunidades desperdiçadas, em partidas anteriores. Falta de personalidade e omissão não combinam com ele, mas tem dia que é noite, não tem jeito! Lógico, pintaram as vaias.
Na segunda etapa, sem mudanças, o Flu voltou apertando mais na marcação alta, tentando a verticalidade, mas esbarrou nas suas próprias limitações. Muita troca de passes inférteis e pouca penetração, fatos recorrentes de uma época para cá, mesmo quando fazemos boas exibições.
Numa bola vadia, metida pelo Robinho, o Pedro Rocha aproveitou-se da falha do Gilberto na hora de fazer a linha de impedimento e entrou em velocidade para calar a voz e o peito de milhões de tricolores. Um a zero pros eternos fregueses azuis!
Hora de mudanças: finalmente entraram Ewandro e os dois meninos. Já não era sem tempo! Venho repetidamente pedindo aqui no Explosão – e entre os parceiros de martírio – um maior aproveitamento destes três jogadores. Meu amigo Fábio Bonfa me confidenciou: – exatamente os atletas que você volta e meia “exige”. O Diniz lhe deve um almoço no Marius Degustare! É óbvio que ele foi mais lacônico e veemente. Estou apenas floreando os fatos.
Ewandro mostrou o seu cartão de visitas logo na segundo lance de que participou: recebeu ótimo passe do Ganso, entrou na velocidade pela esquerda e finalizou mal. Mas ao menos esteve presente numa jogada mais aguda. Ele necessita de mais chances, e acho que vai dar caldo.
Quantos aos “fedelhos” de Xerém… Bom, a jovialidade, a irreverência, as características ofensivas, as personalidades, e os traços vitoriosos de quem sabe de bola foram fundamentais para chegarmos ao empate. Bola na trave, dribles desconcertantes e gol credenciam os dois a serem mais observados – e utilizados – daqui para adiante.
Notinhas importantes sobre os 90 min.: não podemos culpar o Rodolfo pelo gol sofrido, mas aquela bola era defensável. Tempo de contratar um goleiro que inspire mais confiança. Matheus Ferraz é um monstro! Não canso de elogiá-lo. Além de ganhar praticamente todas as jogadas lá na cozinha, o camarada disputou uma bola alçada, de cabeça, com um muro de contenção de nome Dedé, levou vantagem – de costas, e serviu o Jotapê, que consignou o nosso tento, no finalzinho da batalha. Creio piamente que o Diniz esteja mudando as suas convicções e conceitos. Nada de Dodi, nada de três volantes, escalação inicial com três meias, substituição do Luciano, entrada dos moleques etc. Faltam agora o Caio Henrique na sua posição de origem e uma chance ao Zé Ricardo.
Em suma, rapaziada, estamos na briga pela Copa do Brasil. Não estou aqui comemorando um empate, em casa, contra um bom adversário. O Flu é grande demais pra isso. Contudo, diante das circunstâncias, penso que o nosso golzinho no final quase valeu três pontos. Seria duro sairmos derrotados do maior do mundo mais uma vez, e em condições idênticas às dos últimos confrontos: atuando melhor, com o dobro da posse de bola, sofrendo nada defensivamente e tomando um gol maroto, na única investida do “inimigo”.
Para encerrar, eu ratifico o meu apelo: Fernando Diniz, do céu, os meninos querem jogar bola! Ponha-nos mais em campo. Os torcedores agradecerão encarecidos!
Saudações eternamente tricolores!
Ricardo Timon

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