Chuva x Obrigação




Paulo Henrique Ganso (Foto: Lucas Merçon / Fluminense FC - Divulgação)



Chuva x Obrigação

Buenas, tricolada! Passamos para a quarta fase na Copa do Brasil! Numa boa, mais do que obrigação! Fluminense e Luverdense é aquele tipo de confronto que é muito comum nas copas europeias. No Velho Continente, assistimos a Barça vs. Alondras CF, na Espanha. Liverpool vs. Plymouth Argyle, na Inglaterra. Ou ainda Juve vs. Catanzaro, na Itália. E via de regra dá os gigantes. As zebras são raríssimas.
Aqui não poderia ser diferente. O Tricolor encarou a modesta equipe mato grossense, da Série C tupiniquim, e tinha mesmo que despachá-la. Metemos 2×0 nos caras.
Putz! Mas a que custo, hein?! Mais uma vez, o time do Diniz fez uma primeira etapa sofrível, tanto assim que saiu debaixo de sonoras vaias pro intervalo. E olha que a quantidade de torcedores no Maraca, em mais um confronto onde os vácuos e os enormes espaços vazios nas arquibancadas prevaleceram, não lotaria 50 ônibus!
Os puristas podem alegar a falta do bom futebol ao estado do gramado, por conta de mais um toró inclemente na sofrida Cidade Maravilhosa. Mas a tal chuvarada somente desabou aos 20 min. do duelo, e até então assistíamos a um Fluminense desinteressado, sonolento, sem criatividade e irritante. A tempestade apenas piorou a nossa performance – e equilibrou o jogo por baixo.
O onze titular não demonstrava a vontade de vencer que uma grande equipe deve trazer dos vestiários, de uma gloriosa camisa que deveria intimidar. Especialmente contra um adversário mais limitado. Oras, a gente reivindicava nos bastidores a necessidade de avançar de etapa numa competição que tem prioridade ante às demais – e que nos faria abiscoitar quase duas milhas!
Mantivemos mais uma vez aquela posse de bola estéril, abusamos dos totozinhos laterais e para trás, não vimos infiltrações ou metidas de bola e, pior, ignoramos a costumeira aproximação das nossas três linhas, que encurtam o campo e favorecem uma troca de passes mais eficiente.
Neste primeiro tempo, apenas o Matheus Ferraz manteve a sua média – alta. Os seus companheiros só passeavam e dançavam sob a chuva torrencial, como Gene Kelly num clássico de Hollywood dos anos 50! Talvez o Nino, o Allan e o Bruno Silva tenham sido menos fastiosos do que os outros. Talvez!
Veio o segundo período. Ainda sob a desconfiança da nossa pequena galera presente no estádio, bastou demonstrarmos mais vontade, lembrarmos um pouquinho aquele Flu de começo de temporada, apertarmos mais a saída de bola dos malandros e, pronto, saiu o nosso primeiro gol. O incansável Speed, omisso e pouco acionado no primeiro tempo, apareceu como um raio e testou pra meta um bom cruzamento do Everaldo.
Esta seria a senha para a equipe deslanchar, mas o soninho voltou. Ou melhor, intercalamos alguns raros bons momentos com a letargia da primeira etapa.
Em suma, o importante foi termos passado por cima do brioso rival, embolsar uma bolada alvissareira, e seguir acalentando o sonho de papar a Copa do Brasil. Teremos poucos compromissos neste mês de abril e este fato pode conceder tempo suficiente para o Fernando Diniz acertar melhor a equipe para o decorrer do certame.
No compto geral, eu avalio mais ou menos assim o desempenho individual do tricolor na peleja. Segue a minha fria análise sobre os jogadores.
ZAGA
Rodolfo foi mero espectador, ainda bem. Confesso que, atualmente, temo bastante quando o Flu é atacado. Os caras se engraçaram uma vez ou outra pelo lado esquerdo, mas não foram contundentes. Portanto, o nosso goleiro assistiu de camarote à nossa vitória.
Gilberto ainda deve. Não teve atuação pavorosa, como a do último Fla-Flu, mas não voltou a ser aquele lateral incisivo de outrora. Ao menos apresentou-se mais lá na frente.
Nino muito bem. Calmo, vibrante e soberano, por cima e por baixo. Matheus Ferraz foi o melhor, como sempre. O cara atuou pelo lado direito, no primeiro tempo, e pelo setor esquerdo, no segundo. E não se intimidou. Fez inúmeras antecipações. Ganhou diversas jogadas na velocidade dos rápidos ponteiros da Luverdense. Cortou um montão de bolas alçadas na nossa área. Saiu de sua zona de conforto e começou várias tramas de ataque. Enfim, ele está sobrando na turma.
Caio Henrique é o faz tudo nesse time. Não se esconde, participa, combate, avança, mesmo não estando nos seus melhores dias. De um mal não podemos acusá-lo: falta de aplicação! Mas ele não é lateral, porra! Não aguento mais escrever a respeito!
MEIÚCA
Bruno Silva esteve razoavelmente bem, como na ultima partida. Cobriu o lado direito da nossa defesa, fez boa transição, enfiou umas três boas bolas pros nossos atacantes e desdobrou-se na proteção à zaga. Infelizmente, em determinadas ocasiões ele se mostra truculento ao extremo, e por isso fica visado pelas arbitragens. Tomou um cartão amarelo bobo, na etapa final, o terceiro, e está fora da nossa estreia na próxima fase da Copa do Brasil.
Allan, no segundo tempo, muito provavelmente teve o seu melhor aproveitamento com o nosso manto. O moleque correu mais do que notícia ruim! Revezou-se na função de primeiro volante com o Bruno e se saiu bem. Marcou com eficiência, distribuiu bem o jogo, cobriu os dois laterais, apresentou-se constantemente na frente e foi premiado com uma bela assistência pro nosso segundo tento. E que assistência! Passe de meia! Visão de jogo que eu esperava observar mais frequentemente no nosso camisa 10.
PH Ganso caiu de produção, se compararmos as suas últimas participações com os 3 ou 4 primeiros jogos, assim que chegou à casa. Falta-lhe assumir responsabilidades. Botar a bola debaixo do braço e liderar o time, como o velho Mestre Didi. Abastecer-se de maiores iniciativas. Incorporar a condição de craque inquestionável! E talvez calar os críticos recorrentes, que duvidam do seu potencial. Tem um toque diferenciado, mas precisa melhorar a sua postura em campo.
ATAQUE
O Yony é aquilo: corre, entrega-se, vai atrás de todas as jogadas, não há bola perdida pro camarada, mas é jogador de lado de campo, e não centroavante. Ele tem sérias limitações quando busca uma tabela, faz o pivô ou tenta um passe mais arriscado. E desta feita não foi diferente. A seu favor, o faro de gol. É o nosso segundo artilheiro na temporada. O colombiano tem bom poder de fogo – no alto e com a s duas pernas!
Everaldo, definitivamente entrou e má fase! Prefiro pensar desta forma a imaginar que ele já esteja com a cabeça no futebol paulista – ou mineiro! Fez o cruzamento pro segundo gol, beleza, mas sem essa de assistência. Sou de uma época em que assistência era uma metida de bola no meio da zaga adversária, como fez o Allan, no gol do Luciano. Ou um lançamento, a la Gérson e Riva, de 50 metros, que deixava um companheiro de cara pro crime. Hoje em dia, escanteio é assistência! Rolar uma bola por 50 cm. para o lado é assistência! Errar um chute e achar um colega livre para estufar as redes é assistência! Bater uma falta na entrada da área em dois tempos é assistência! Peralá! Ratificando o que volta e meia identifico aqui na minha coluna, o nosso pontinha se esforça, se dedica, dá o seu sangue, come grama, não tira pé de dividida, mas o seu declínio é nítido e cristalino.
Putz! Falar do Luciano é sempre complicado! Eu já estava pronto para queimar o filme do cara novamente. Repetir o que venho dizendo desde as semis da Taça GB. Escrachar em críticas mais uma péssima atuação do nosso camisa 18. De repente, do nada, ele se coloca muito bem entre a zaga “inimiga”, recebe um bolão do Allan, e arremata para o gol, o nosso segundo na partida, com a frieza de um grande jogador! O que mais eu poderia acrescentar? OK! O seu conjunto da obra não vem sendo satisfatório há uns seis confrontos, mas ele é o nosso artilheiro no ano, caramba! Vira e mexe deixa a sua marca. Participa ativamente, doa-se, briga (na acepção do termo) os 90 min., tem bom passe, recompõe o meio com eficácia… e aí? Pois é, deixemos quieto!
SUBSTITUIÇÕES
Rápido e rasteiro como uma mamba negra, tô de saco cheio dessa opção do Diniz pelo Dodi! Porra, sempre ele?! O moleque não tem culpa, ele é jogador do Flu, pra mim é até bom pra elenco, em eventuais necessidades, mas quando não entra como titular, transforma-se em primeira alternativa do nosso treinador?! Não dá, né, cumpadi! E, em mais uma ocasião, ele não acrescentou porra nenhuma ao time!
Daniel entrou no final, para compor o meio e substituir o exaurido Allan, com cãimbras. Não há muito o que comentar sobre este garoto além daquilo que sempre venho enumerando aqui mesmo.
E, definitivamente, a minha paciência esgotou-se com o tal Mateus Gonçalves. Ainda que eu me arrependa ali adiante, tenho quase convicção de que este menino não vingará no Fluminense! Apesar do pouco tempo em campo, o rapaz só cagou o pau!
TÉCNICO
Fernando Diniz, você deparou-se nesta quarta-feira com uma equipe da Terceira Divisão do futebol brasileiro! O Fluminense precisa mostrar mais!
Vimos as péssimas condições do clima e do campo de jogo, no primeiro tempo, mas antes do vendaval, o Flu já dava sinais da mesmíssima iniquidade do confronto de ida, contra esta Luverdense, lá no Mato Grosso.
Sabemos dos salários atrasados, conhecemos as dificuldades que essa diretoria amadora e incompetente imputa ao clube, mas aquela armadura listrada de verde, branco e grená carrega alguns milhões de toneladas de glórias, história, pioneirismo e triunfos!
Os jogadores, quaisquer deles, quando a trajam, TÊM QUE incorporar todos estes valores de grandeza e traduzi-los em garra, vontade e amor ao sangue do encarnado! E você hoje é o mensageiro desta biografia.
Este primeiro tempo do FFC contra a despretensiosa Luverdense, assim como algumas de nossas atuações em partidas recentes, não traduzem um milésimo daquilo com o que Álvaro Chaves já teve a honra de conviver – e você sabe bem disso, pois já foi atleta tricolor!
Umas poucas dicas: você tem crédito. O torcedor comprou o seu barulho. O time demonstrou, no começo da temporada, um futebol que nos fez abrir sorrisos incontroláveis. Mas aqui no Brasil tudo isto é efêmero! Três porradas seguidas desmontam estruturas, padrões, juízos e conceitos. O herói transforma-se em vilão bem rápido – como ex-jogador, você deve estar careca de saber.
Então, parceiro, ouça um pouco mais a sua voz interior – ou ative o seu modo ON – e recicle algumas decisões. Não abra mão das convicções que levaram-lhe ao status de treinador de um dos maiores clubes do planeta, mas refaça minimamente o seu planejamento. E, em especial, deixe a mesmice, as cismas e a teimosia de lado. A torcida do Fluminense Football Club agradecerá encarecida!
Saudações eternamente tricolores!
Rapidinhas:
– Tristeza absoluta pelas recorrentes tragédias no Rio. Sei que este espaço não trata de assuntos não inerentes ao Flu. Mas execuções sumárias de inocentes e temporais que matam por descaso não podem passar em branco! RIP, vítimas dos desmandos! RIP, guerreirinha Júlia Neves Ache! RIP, São Sebastião do Rio de Janeiro!
– Apenas para exercitarmos a nossa criatividade, que tal um Fluminense assim escalado? Agenor; Gilberto, Nino, Matheus Ferraz e Mascarenhas; Bruno Silva (Allan), Caio Henrique e PH Ganso; Yony Gonzales, Luciano e João Pedro (Everaldo ou Marcos Paulo). Sem considerar as voltas do Digão e do Pedro, as estreias de Léo Artur e do Ewandro, e a possível saída do Everaldo.
– Pouco se dão conta, já que a preocupação maior é com a temporada atual. Contudo, se fizermos um cálculo rápido, em 2020 não teremos elenco! Sim, porque 90% das contratações deste 2019 são de jogadores que nos chegaram por empréstimo. Será somente a falta de recursos ou o Abad estaria lavando as mãos, mesmo, ante à sua provável saída?

Ricardo Timon

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